À deriva, Forte de São Marcelo será privatizado

O forte de São Marcelo está fechado a visitações há sete anos e reformas continuam pendentes

Albenísio Fonseca

Signo bélico e exótico, o Forte de São Marcelo, na Baía de Todos os Santos, permanece à deriva. O acesso a visitas continua impossibilitado há mais de sete anos, em decorrência da ausência de manutenção. Após a reforma na estrutura submersa, ou roca, o Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Bahia, deu por concluída a obra em novembro de 2016, inclusive com festa e anúncio da transferência do equipamento à gestão da Prefeitura, após o restauro que durou dois anos e custou R$ 7,5 milhões.
Acreditou-se até que, finalmente, o equipamento histórico, arquitetônico e turístico, um dos mais emblemáticos cartões postais da cidade, fosse deixar de estar, senão invisibilizado, inacessível ao público. 
Mas a verdade é que isso não aconteceu até o momento. De acordo com o secretário Municipal de Cultura, Cláudio Tinôco, “ainda faltam proceder as reformas hidráulica e elétrica, estimada em R$ 10 milhões, além de outros acabamentos para que possa entrar em atividade”.
De todo modo, ainda segundo Tinôco, “mesmo sem ter assumido a gestão do equipamento, a Secult vem procedendo estudos de alternativas para sua ocupação”. Ele ressalta a necessidade de garantias para o deslocamento de visitantes, apesar da distância de apenas 300 metros para o cais e adoção de critérios de viabilidade econômica que possibilitem a auto sustentabilidade do forte – único em formato circular das Américas.
Ressalte-se que o Memorial do Frontispício, que também passou por obra de restauro a cargo do Iphan, por meio do PAC Cidades Históricas, foi entregue depois do Forte São Marcelo e já está aberto à população, após ser transformado em tempo-relâmpago na Casa do Carnaval.
Cláudio Tinôco adianta já existir uma empresa interessada em gerir o espaço, “de forma direta”, o que compreenderá a privatização ou terceirização do patrimônio junto à iniciativa privada, embora ainda não esteja definido se, para isso, a Prefeitura lançará ou não edital de concorrência pública. 
O secretário avalia como “muito ruim” o fato do forte permanecer fechado, “tanto para a cidade como para a Baía de Todos os Santos”. Ele destacou as “simbologias arquitetônica, histórica e o caráter bélico do São Marcelo, como das demais fortificações existentes na faixa litorânea do município, como responsáveis pelo status de cidade-fortaleza que durante séculos caracterizou Salvador”. Assinalou, também, a localização estratégica, na entrada do porto, e a proximidade com outros equipamentos turísticos como o Elevador Lacerda, a Fonte de Mário Cravo, Mercado Modelo e o Terminal Náutico.

Estudos buscam alternativas
de uso do equipamento 

Imagem relacionadaEspaço poderá voltar a dispor de restaurante

Uma das hipóteses cogitadas pela Prefeitura é a de instalar ali o Memorial da Baía, diz Tinôco, “de modo que permita contar a história dos inúmeros naufrágios ocorridos nas águas da Baía de Todos os Santos, os sistemas de transporte já adotados para o transporte de pessoas e mercadorias junto aos 18 municípios do entorno, além da disposição de restaurante e espaço para contemplação da capital naquele trecho”. Entre outras alternativas, há propostas como base para turismo subaquático; ponto de percurso turístico com instalação de barracas para comercialização de souvenirs, além da realização de eventos, como já contemplado naquele espaço.
A iniciativa de revitalizar o São Marcelo navega com dificuldade junto às da implantação do Museu da Música (no casarão dos azulejos azuis), integrado ao do novo prédio para o Arquivo Público Municipal (no outro casarão em ruínas ao lado). As obras estão estipuladas em R$ 40 milhões, além da requalificação da Praça Cayru, orçada em R$ 7,5 milhões, com recursos do Ministério das Cidades e do PAC-Cidades Históricas. O lançamento da licitação para as restaurações arquitetônica e viabilização do acervo museológico do Museu da Cidade, conforme o secretário, estava prevista para janeiro de 2018. Agora, a municipalidade acena com entrega dos equipamentos, mesmo sem qualquer iniciativa para deflagração de obras, em 2020. 

Prodetur não sai do papel

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Vista da Baía de Todos os Santos da Praça Municipal de Salvador
Prodetur para a Baía
de Todos os Santos
não sai do papel
 
Albenísio Fonseca
 

As águas da BTS-Baía de Todos os Santos são claríssimas em seu tom verde azulado, mas a transparência do Prodetur-Programa de Desenvolvimento do Turismo, sob gestão do Governo do Estado, é completamente obscura.

Há cinco anos à deriva ou dormitando no cofre, nada menos que US$ 84,7 milhões (cerca de R$ 250 milhões), viabilizados junto ao BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento para o programa, permanecem sem destinação. Sob dados defasados no site do programa na Internet, as únicas aplicações do recurso, até o momento, envolveu a contratação de um consórcio para viabilizar como aplicar o dinheiro e reuniões com setores e municípios sem que a iniciativa se concretize.

Entre outras ações e sem direito a comemorações nos 517 da descoberta da BTS, o Prodetur-Bahia envolve a construção e recuperação de atracadouros, assim como a construção de nove bases náuticas e pontos de apoio; revitalização de museus, qualificação de mão de obra, além da construção de um SAC náutico, que permita agilizar os trâmites das embarcações, em um universo que compreende 18 municípios, quase todos no entorno da BTS. 

 

Em ritmo de Roteirização

 

A primeira etapa, denominada por ‘Roteirização”, envolveu reuniões com os setores diretamente interessados em um novo cenário para dinamização do turismo na Baía. A primeira delas aconteceu em Cachoeira com a participação de municípios vizinhos. Uma segunda, sob o mesmo critério de participações, em Itaparica, e uma terceira, em Madre de Deus. A atividade tem como objetivo apresentar, ou indicar espacialmente, a nova roteirização para a integração dos atrativos constantes do patrimônio da BTS.


Acidente com a lancha Cavalo Marinho I causou a morte de 19 pessoas

 

Frente ao naufrágio da lancha “Cavalo Marinho I”, com 19 mortes, em 24 de agosto de 2017, na Baía de Todos os Santos, o Governo do Estado parecia permanecer sem projetos para executar ações de infraestrutura e transportes no amplo universo náutico que circunda o Recôncavo baiano.  Tem, até então, acenado unicamente com a construção de uma ponte ligando a capital à Ilha, como se esse caríssimo empreendimento negociado com os chineses, fosse abolir do cenário o transporte marítimo e a potencialidade turística e cultural da BTS. Diante de vazamento de substância oleosa no Rio São Paulo, município de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, em 13 de junho de 2018, integrantes do Conselho Estadual do Turismo aprovaram moção de protesto para cobrar da Petrobras providências urgentes, a fim de assegurar a plena recuperação da área atingida. A empresa informou que cerca de 90% da área atingida pelo vazamento foi limpa por sua equipe de contingência.

A estratégia de produto turístico, vislumbrada sob os milhões de dólares do BID, tem o objetivo de desenvolver novas opções nos segmentos náutico e cultural, com vistas a ampliar a demanda e a competitividade da BTS nos mercados nacional e internacional. Nesse sentido, tem ainda como desafios: possibilitar o aumento do fluxo turístico (atraindo aquele com maior propensão a gastar); proporcionar melhor aproveitamento turístico ao acervo cultural; desconcentrar a atividade turística no Estado; e, com isso, “minimizar impactos de fatores macroeconômicos externos na economia regional”.

Foto: Tatiana Azeviche/Setur

O Museu Wanderley de Pinho, em Candeias, também ganhará intervenções

Requalificações e capacitações

 

Entre as linhas gerais do projeto consta a proposta de criação de um programa integrado de intervenção, com implantação de receptivos turísticos em bases náuticas e pontos de apoio ao turista. Como parte da recuperação do patrimônio cultural, há previsões de intervenções que visam, também, à requalificação do entorno da Rua Chile, a exemplo das ruas Rui Barbosa, D’Ajuda, Tesouro e transversais, inclusive com criação de um estacionamento na Rua do Tesouro, não se sabe ao certo se na área do Muncab-Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, e uma Feira de Antiguidades, na Rui Barbosa, onde já se concentra o maior número de lojas do ramo. Está prevista, ainda, a recuperação das instalações físicas do Museu Wanderley de Pinho, em Candeias.

O Prodetur na Bahia, conforme revelado, deve ir além das obras físicas. Contará com medidas voltadas para capacitação de microempresários, inclusive artesãos, e desenvolvimento de políticas econômicas locais, a exemplo do sistema de transporte. Há, do mesmo modo, intervenções cogitadas para a implantação de sinalizações rodoviária, turística e marítima nos municípios envolvidos no programa.

O pacote prevê, inclusive, obras de urbanização na orla de São Félix e a construção do Centro de Documentação e Memória da Cultura Negra do Recôncavo, em Cachoeira. No que tange à infraestrutura com foco ambiental, os projetos incluem a implantação de um plano de gestão integrada de resíduos sólidos e o desenvolvimento de uma central de captação de dejetos produzidos pelas embarcações em toda a área da baía.

 

Ex-secretário diz ter deixado tudo pronto

 

De acordo com Domingos Leonelli, secretário de Turismo no Governo Jaques Wagner, “trabalhamos na Setur. com uma excelente equipe coordenada por Clarissa Amaral e realizamos todos os procedimentos e prazos exigidos pelo BID, para a captação do recurso visando a  requalificação da Baia de Todos os Santos para o turismo náutico, inclusive prevendo a criação de novos atracadouros na ilha de Itaparica”. 

Leonelli lembra ter saído da Secretaria em dezembro de 2013, e salienta ter “deixado uma equipe com treinamento do próprio BID”. Ele ressaltou que Pedro Galvão, seu sucessor, foi à Brasília, em 2014, assinar o termo do financiamento para o contrato e inicio das obras. De acordo com o ex-secretário, “soube depois que, no governo de Rui Costa, quando o titular da Setur era Nelson Pellegrino, estranhamente, em que pese a qualificação, toda a equipe foi substituída” e houve uma tentativa de mudar o projeto para contemplar os litorais de Ilhéus e Itacaré, o que acarretou um atraso de 18 meses para viabilizar a nova proposta”, afinal, recusada pelo BID.

Segundo Clarissa Amaral, que coordenou a elaboração do projeto, “começamos a negociar com o BID em março de 2011. Em 2012, depois de três missões do banco, concluímos o projeto que foi autorizado pelo Governo Federal, avalista do empréstimo, em 2013. Como o Governo do Estado, naquela época, estava sem capacidade de endividamento, o contrato só veio a ser assinado em abril de 2014″.

Ela destacou a relevância e grandiosidade do projeto “dada as ações que vão desde implantação e recuperação de infraestrutura náutica à recuperação de patrimônio histórico-cultural, qualificação de recursos humanos, visando capacitar e ampliar a cadeia produtiva do turismo, além do fortalecimento institucional das instâncias de governança, preservação do meio ambiente e modernização tecnológica”.

Através da Setur-Secretaria Estadual de Turismo, sabe-se apenas que ainda não se conseguiu definir como se constituirá a implantação de um  sistema de governança para o Programa. É visível, também, o quanto permanece sem divulgação pública os itens que comporão o “Portfólio de Produtos Culturais Criativos”, tampouco como se dará a “qualificação profissional” para os “Produtores Culturais Criativos”, ou quanto à adoção de empresas incubadoras para tais produtos. Mas é certo que a etapa seguinte, cuja última data anunciada para início das intervenções seria o início do segundo semestre de 2018, consistirá na abertura de licitações para obras físicas, em um conjunto de ações estruturantes para o desenvolvimento do turismo náutico e cultural na BTS. 

Consideremos então que, embora com disponibilidade de recursos, a “maré” empreendedora do Governo do Estado permanece baixa, o que nos leva a navegar sob a expectativa de que não entre água nessa importante iniciativa cujos municípios a serem beneficiados são: Aratuípe, Cachoeira, Candeias, Itaparica, Jaguaripe, Madre de Deus, Maragojipe, Muniz Ferreira, Muritiba, Nazaré, Salinas da Margarida, Santo Amaro, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz, além de Salvador. #

Sob o signo e o sangue das baleias

                                                                                                                                Foto: Instituto Baleia JubarteImagem relacionadaJubarte dá salto em plena Baía de Todos os Santos, à frente da Costa de Salvador

Albenísio Fonseca

Imagine Salvador e vilas do Recôncavo iluminadas durante o século XIX. As ruas têm os lampiões acesos e, nas residências, as luminárias flamejam. Mas qual combustível era esse que permitia tamanha luminosidade? Sim, em contraposição a ciclos econômicos dos períodos colonial (1500-1822) e imperial (1822-1889) proporcionados pela exploração do pau-brasil e das plantation de cana-de-açúcar e café, como nas minerações de ouro – o ciclo da pesca da baleia na Costa brasileira, notadamente na Baía de Todos os Santos, é um fato histórico da expansão exportadora que, embora de alta relevância, permanece submerso ou à deriva, relegado a parcas abordagens dos nossos historiadores.

A pesca das baleias e seus filhotes, por 300 anos – entre barcos fundeados na Baía – à média de 200 animais por ano e 10 mil litros de azeite por exemplar, consistia em dramático e trágico espetáculo assistido das balaustradas dos sobrados, subidas de morros, montanhas e praias, de onde se contemplava o embate excitante e o transbordar nas águas do sangue do pescado. Não raras vezes, estarrecidos com o naufrágio das embarcações e seus tripulantes, vencidos pela força do maior animal do planeta.

Arpoadas e rebocadas à praia ou às armações, as baleias eram retalhadas e delas extraídos os subprodutos. A carne, tida como ordinária, além de distribuída gratuitamente à gente pobre do lugar, era geralmente destinada a alimentar os escravos trabalhadores das armações e vendida às ganhadeiras, que as salgavam, moqueavam e saíam vendendo pelas ruas de Salvador e vilas do Recôncavo. Os ossos, empregados em obras ou suportes para lavagem de roupa. À beira mar, restos do “monstro” permaneciam fétidos.

                                                                                     Foto: Bona Beding/Mail Online O ritual secular da pesca de baleias ainda persiste entre orientais

A pesca da baleia consolida-se no século XIX como um sistema ecologicamente devastador para a produção do óleo ou azeite, extraído da gordura do cetáceo e que viabiliza por três séculos o combustível gerador da iluminação das cidades e residências, não só nesta capital e seus arredores como em Pernambuco, São Paulo, Rio, Santa Catarina e cidades europeias. A atividade foi introduzida na Bahia, nos primeiros anos do século XVII, quando da denominada União Ibérica – de Portugal e Espanha – entre 1580 e 1640. O rei Felipe III, em 9 de agosto de 1602, autoriza dois estrangeiros, os biscainhos (ou bascos) Pêro de Urecha e seu sócio Julião Miguel, a pescarem baleias nas costas brasileiras, pelo prazo de dez anos

Exímios pescadores de baleia, após as capturas do mamífero aquático, processavam a gordura em bases cujas localizações nunca foram identificadas e retornavam à Espanha levando o azeite do peixe e gêneros da Colônia. Antes, porém, abasteciam o Recôncavo com o combustível, conforme acerto em contrato. Entre 1602 e 1612, todavia, a Câmara Municipal de Salvador estimula a pesca do cetáceo junto aos habitantes da cidade. O episódio traz sérios prejuízos àqueles empreendedores, por conta do aumento da “produção caseira” de um azeite de baixa qualidade, resultando consequentemente em queda nos preços. Como decorrência, os biscainhos perdem o interesse em continuar pescando os cetáceos nas águas brasileiras.

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livreIlustração mostra pesca da baleia na Baía de Todos os Santos no século XIX

Na capital, Antonio da Costa obteria o primeiro contrato de concessão para pesca da baleia e exploração dos seus derivados, em 1614.  Detentor do monopólio, expande a atividade por todo o litoral da cidade. Instala armações na Pituba, no Rio Vermelho, nas proximidades do Forte de Santo Antônio da Barra, na Pedra Furada e em Itapuã. As armações consistiam em estrutura com embarcações, fábrica, alojamentos, armazéns, fornalhas, tanques, caldeiras, escravos, terras, apetrechos de pesca e as de manufatura do azeite.

Conforme minucioso estudo de Myriam Ellis, “A pesca da baleia no período colonial” (Ed. Melhoramentos, 1ª edição, 1959) – em todas as armações do litoral brasileiro predominava mão de obra escrava. As maiores indústrias de óleo chegavam a empregar mais de uma centena de cativos, além de trabalhadores livres, a labutar dia e noite em fornalhas que derretiam o espesso toucinho do animal. Findo o monopólio, as armações da Bahia, em Itaparica e Itapuã, são vendidas a particulares que continuaram a pescar baleias nas águas da Baía de Todos os Santos. As existentes no Sul do Brasil foram tomadas pela Coroa Real e desastrosamente administradas. Ao oferecê-las em concessão a particulares, 15 anos depois, já não encontraria interessados.

Afora a escassez da espécie, pela pesca predatória, havia a concorrência estrangeira. Americanos e ingleses desenvolveram tecnologia para processar a gordura e extrair o azeite no interior das próprias embarcações, em alto mar. O fim do ciclo decorre da descoberta do petróleo, em 1859, tornando o querosene como novo combustível para iluminação. Resta-nos, contudo, em Itapuã, alegorias das baleias a festejar a influência da pesca na formação social e econômica de Salvador.

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Graffitis – A cidade como ateliê

Albenísio Fonseca

(Grafite do artista britânico Banksy vendido pelo equivalente a US$ 400 mil, em um leilão no site eBay. A imagem (acima) foi feita em uma parede junto ao restaurante “Falafel King”, no bairro de Notting Hill, no oeste de Londres. Para levar a arte para casa, o comprador teve que remover a parede.
Banksy, cuja identidade nunca foi revelada oficialmente, é conhecido por seus desenhos de conotação política na capital britânica e em outras partes do mundo. Já grafitou, inclusive, o muro construído por Israel, na Cisjordânia, em 2005. Os desenhos satirizavam a vida do outro lado da barreira.
Outros dos seus grafitis reproduzem um buraco na parede com uma paisagem tranquila ao fundo. Outro, uma pomba branca vestida com colete à prova de balas. O preço de suas obras não para de subir. Veja outros belos trabalhos do artista em  http://rebobine.wordpress.com/2008/01/15/grafite-arte/ )

A exemplo de Pompéia, cidade romana que ao ser desterrada apresentou inúmeras inscrições nas amuradas dos seus prédios, Paris, em 1968, quando a prática do grafite passou a veicular conceituações anárquicas, e Nova Iorque, em 1972, com o registro de significantes vazios (desprovidos de significado), Salvador sofreu, em 1979, uma verdadeira “sanha pichadora”, estabelecendo um componente bastante distinto na paisagem da cidade.

Mas se tal prática remonta a um período indefinido ao longo da história, inscrevendo-se mesmo como um importante mecanismo de expressão sócio cultural, os elementos de que se compõe, como não poderia deixar de ser, têm sofrido mudanças consideráveis do ponto de vista das proposições, com ramificações múltiplas.

Algumas, evidenciando apenas uma “motivação publicitária”, outras, constituindo estímulos de ação, tipicamente politizadores, como na exigência de uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, ou propondo o “vote contra o governo”. Dentro deste plano, mas realizados justamente por aqueles que se destinam à ocupação de um cargo público, candidatos à Câmara, Assembléia ou Congresso, encontram-se os grafites de nomes e números de registros, na luta pelo voto dos eleitores.

Distantes das experiências de Paris e Nova Iorque, não só geográfica e cronologicamente, mas pelas próprias diferenças sociais e culturais, os grafites em Salvador, entretanto, surgiram com características próprias. No caso do grupo Baldeação, com uma tendência mais pictórica que semântica, outros grafitistas anônimos (“Mancha”, “Min”, “Jaciara”, K7, ML, Gay, tirana e Raio, entre outros), dialogaram nos muros da cidade ou expressaram-se através de construções poéticas e em nome destas:

“O desejo sobrevoa as asas da história”; “Tatuar [equivalente a erotizar] a boca do mundo com o batom das palavras”; “Uma linguagem de ação quem fala é o corpo”; “Te amei com balas nos olhos”; “Só o sério é cômico”, são alguns dos exemplos grafitados.

Paralelamente, surgiram os “Poetas da Praça”, tomando de assalto a Praça da Piedade e inscrevendo seus poemas no “chão da praça”, numa experiência inédita do país. Na realidade, o grafite, nos moldes como foi e vem sendo realizado, é uma constatação na maioria das capitais brasileiras.

Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Porto Alegre, a iniciativa alastrou-se como um exercício inevitável e generalizado, talvez por constituir uma forma mais densa e duradoura de tornar concreta a realidade do relacionamento com o mundo, anterior ao advento da Internet.

Em Salvador, além dos “slogans” político-ideológicos e contraposições religiosas (“Deus condena o candomblé” ou “Só Jesus salva”) há os que trazem a fértil marca de insinuante imaginação criadora, entre os quais encontramos como “grafiteiros tradicionais” os organizadores de blocos carnavalescos, com assídua presença nos muros a cada ano (e nesse caso, cada ano sai melhor). O fundamento principal destes é a motivação publicitária, no sentido de recrutar um maior número de integrantes para compor as suas alas.

Na falta de um veículo para divulgação das suas idéias ou estímulos e com as autoridades vez por outra “pondo as mãos” nos que insistem em “danificar o patrimônio público”, os “poetas de muro”, como chegaram a se auto intitular os grafiteiros contemporâneos, contam com a cumplicidade noturna e põem em evidência e conflito uma questão muito frágil e sutil: A liberdade de manifestação e expressão como um direito também daqueles que não dispõem de veículos de informação.

MATRIZ DO URBANO

“A cidade foi, antes de tudo, o lugar da produção e da realização da mercadoria, da concentração e da exploração industriais. Atualmente ela é, sobretudo, o lugar da execução do signo como sentença de vida e de morte. Hoje em dia, a fábrica, enquanto modelo de socialização pelo capital, não desapareceu, mas ela cede lugar, na estratégia geral, para a cidade como espaço do código.

A matriz do urbano não é mais a da realização de uma força (a força de trabalho) mas a da realização de uma diferença (a operação do signo). A metalurgia se tornou semiurgia (Jean Baudrillard, in “Kool Killer ou A Insurreição Pelos Signos”, ensaio sobre a prática do grafite em Nova Iorque, 1972).

A cidade tornou-se mesmo um ateliê, o “habitat” de um incessante tráfico de signos. Todos nós existimos em meio ao conjunto dessas mercadorias e signos que nos cercam e nos povoam, mantendo sempre, consciente ou inconscientemente, um diálogo com eles. Segundo o crítico de artes plásticas, Roberto Pontual, a expressão desse diálogo – realizada por qualquer um dos meios disponíveis ou inventáveis (a palavra falada e escrita, os gestos, os sons, as formas e cores, os usos de tudo que existe, o próprio jeito de viver) – já constitui, por si mesma, um ato criador independente de avaliações críticas que a rotulem ou não como artes.

LINGUAGEM PRÓPRIA

Se um livro ou um jornal pressupõem a opção entre ler ou não, isto não ocorre com a evidência do grafite. Neste caso, a comunicação se processa de maneira imediata, bastando para tanto o acesso ocasional, de um modo semelhante à enxurrada de imagens com que a tevê invade nossos lares e sentidos. A singularidade do grafite reside no fato de que seu consumidor é todo transeunte no trajeto do seu espaço visual.

Conforme nos afirmou um autor de diversos grafites, “o importante é a concisão da construção semântica ou pictórica e a disposição de sua visualidade”. Preocupado em permanecer no anonimato, o poeta disse ainda que o ideal seria trabalhar, criticamente, com formas puramente visuais, estabelecendo uma “linguagem própria”, possível de “leitura” pelos não-alfabetizados: “Mas, o que vale mesmo é a ocupação do espaço, um ‘spray’ na mão e uma idéia na cabeça”. Declarou como se fosse um oráculo da era da comunicação. Afirmavam os romanos, contudo, que “muralha é papel de canalha”, tendo em mente, por certo, o fato das proposições, naquele período, terem como objetivo a moral ou o pudor de indivíduos com função pública.

ARQUITETURA E CORPO

“Viver na cidade significa dispor de uma técnica corporal. A disciplina é a tecnologia específica da fabricação e administração de um protótipo de população (…) O aparato da disciplina, inscrito nas instituições da cidade, manipula, modela e reconstrói o corpo invertendo minuciosamente as operações pulsionais, administrando-as, impondo limitações, obediências e o desejo da exploração econômica e da submissão. Uma indústria de regulamentos atua nos inúmeros procedimentos para evitar gestos de inutilidades contrários ao processo de acumulação e para especializar, institucionalizar o próprio corpo. (Almandrade, in “A Cidade, um Aparelho Estratégico”; texto inédito).

Para Jean Baudrillard, “os grafites não se preocupam com a arquitetura, eles a profanam, eles a esquecem, a transpassam (…) Mas, a arquitetura e o urbanismo, mesmo transfigurados pela imaginação, nada podem tocar, pois eles próprios são mídia e, até mesmo, nas suas concepções mais audaciosas, reproduzem a relação social de massa, ou seja, relegam as pessoas à impossibilidade coletiva de resposta”.

Alinhemos ainda nessas referências o artigo da socióloga Maria de Azevedo Brandão, “O Capitalismo não precisa do centro da cidade. O que fazer?”, publicado no caderno Econômico de A TARDE, em 16 de setembro do 1985: “Urbano em sua essência, o capitalismo não precisa do centro das cidades. Precisou sim, e fortaleceu-os, na medida em que neles se refinaram os mecanismos da divisão do trabalho e da centralização do poder. Mas, na medida em que avançaram a mercantilização de todos os bens e serviços, no desenvolvimento das técnicas de comunicação e burocratização da vida política, o centro das cidades, como realidade política e cultural, perdeu o seu sentido…”

Concluamos essa abordagem com o próprio Jean Baudrillard. Para ele, no ensaio a que nos referimos anteriormente, publicado na revista Cine Olho, nº 5/6, “o sistema pode abrir mão da cidade fabril, produtora, espaço/tempo da mercadoria e das relações sociais mercantis. Existem signos desta evolução. Mas, ele não pode prescindir do urbano como espaço/tempo do código e da reprodução, pois a centralização do código é a própria definição do poder”.

REFRATÁRIOS

Na subjetividade do fenômeno grafite, dos anos 80, porém, além do caráter contestatório ao discurso do autoritarismo brasileiro, pós-64, é possível identificar formas de recusa à tradição tautológica e persuasiva de apreensão da realidade.

Queiramos ou não, o muro como um novo veículo para a poesia ou suporte para as artes plásticas – e até mesmo compreendendo estas manifestações como transartísticas ou transideológicas – curiosamente eventualiza um novo universo estético que transcende objetivamente a cotidianeidade dos trabalhos domésticos e instaura, não exatamente o princípio, mas o precipício do prazer.
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Jornal A TARDE, Caderno 2 – Capa, em 07.06.1980