Biblioteca Pública da Bahia faz 207 anos

ALBENÍSIO FONSECA

                                                                                        Foto: Divulgação                                              
                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 207 anos neste domingo, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Em meio a grave crise de manutenção, nenhuma atividade está programada para marcar a data.
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

Da bienal ao caos. Ou, deixe para amanhã, você está no MAM!

 

                                                                                                                   Fotos: Albenísio Fonseca
Parque das Esculturas, como o Solar, permanece relegado ao abandono e interditado ao público

 


Em plena Baía de Todos os Santos, também exangue, espaços nobres do MAM estão à revelia

Equipamento construído no século XVI, de fundamental importância histórica, turística e cultural para Salvador, o Solar do Unhão, na Avenida Contorno, onde está instalado o MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, permanece sob obras de reforma que se arrastam há quase cinco anos. Os trabalhos deveriam ter sido concluídos para a Copa das Confederações, em 2013. Foram adiados para a Copa do Mundo, um ano depois, mas atravessam os governo Jaques Wagner e Rui Costa, em injustificável protelamento, exceto pelo total desinteresse do Executivo Estadual.

Não há como deixar de reconhecer a relevância do equipamento. Mas o estado, ou seu síndico de plantão, demonstram abdicar da solução de continuidade da reforma, como, do mesmo modo, levou ao desabamento do Centro de Convenções da Bahia e mantém em abandono os parques metropolitanos do Abaeté e de Pitauçu. O descaso, além de tolher eventos como a Bienal, ressuscitada e rematada, configura atitude na qual o que sobressai é apenas um estado de caos, à revelia do interesse público e mesmo para com os trades turístico e cultural.

É intransferível a responsabilidade do governo por esta inaceitável condição à qual o Museu foi relegado. Dirigido por cinco gestores que se sucederam nos últimos 11 anos, às expensas da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, é correto afirmar que “o MAM e o Solar se sobrepõem, em importância, até mesmo ao TCA-Teatro Castro Alves, guardadas as diferenças que demarcam as respectivas atividades desse dois significativos espaços”, como estipula o diretor Zivé Giudice, reconduzido recentemente ao cargo.

A reforma no Museu está paralisada há 10 meses e não há perspectiva de quando será retomada. A alegada paupéria das finanças estaduais não absolve o executivo, à medida que se trata de obra prevista em orçamento. Chegou-se a acenar com a liberação de R$ 7,7 milhões, mas ficamos na “conta dos 7”. A duras penas e de forma extremamente precária, permanecem em funcionamento o Salão do Solar, cujo mezanino, também criado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em 1963, está interditado, dada a quantidade de goteiras; o pequeno salão na parte inferior do equipamento, a Capela e o Galpão das Oficinas de Arte, crucial para o viés didático promovido há quase 40 anos para jovens, crianças e adultos.

À frente da Baía de Todos os Santos, também exangue, apesar da disponibilidade de recursos do Bird, na ordem dos US$ 68 milhões, outro espaço nobre da instituição, o Parque das Esculturas – do mesmo modo interditado ao público pela paralisação dos serviços da empreiteira, contratada sob licitação mas sem obter o repasse de recursos – é tratado sem a responsabilidade que se espera e exige-se dos governos para com o patrimônio, ainda que contemple painéis, esculturas e instalações de artistas, não só baianos, mas nacionais e internacionais.

Os extraordinários acervos de artes visuais e bibliotecário de que o MAM é detentor, por sua vez, estão relegados ao improviso de um canto qualquer, vale dizer, sem que se possa observar o cuidado das mínimas condições de preservação, a revelar forma indigna do compromisso público para com a Arte, a Cultura e a circunscrever, no limite da tolerância, um “território sem identidade”.

Aliás, convertido pelo Ipac em palco para espetáculos musicais ensurdecedores, dado o volume de decibéis e sem qualquer diálogo com o mundo das artes visuais, os shows na área externa, parecem obedecer, como e diria de um inaudível paradoxo, ao despropósito de comprometer as estruturas do já combalido Solar. Chame o síndico, ou deixe para amanhã, você está no MAM!


Situação do píer permanece sem solução

 

 

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O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

 


A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

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Em ruína, Cine Jandaia é doado ao Estado

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ALBENÍSIO FONSECA

O Cine Jandaia é nosso. Bem entendido, passa ao controle do Estado a partir do próximo dia 17 quando representantes da Casa Civil e do Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural confirmarão ao promotor de Justiça do Meio Ambiente, instância do MPE-Ministério Público do Estado, Antonio Sergio Mendes, a decisão de aceitar a doação do imóvel em ruínas, conforme proposta da Savinal S/A Comércio e Indústria, pertencente a Cláudio Valansi, proprietário do equipamento. Inaugurado em 1931, o Jandaia detém relevante importância histórica e arquitetônica, em seus 1.200 m² de área construída, por suas influências das artes Nouveau e Déco e pela extensa lista de artistas locais, nacionais e internacionais que se apresentaram no local.

Até então, a propriedade é de Valansi, herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, empresa nacional, que atua no ramo de exibição cinematográfica com mais de 60 salas de projeção em diversos estados do País e sede no Rio de Janeiro. Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, as negociações com o proprietário, visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014.

Após manifestação pública, há exatamente um ano, convocada pelo fotógrafo e produtor cultural Dimitri Ganzelevitch, através de redes sociais na Internet, em ato que envolveu um “abraço” ao prédio em ruínas, na Baixa dos Sapateiros, o governador Rui Costa optou por baixar decreto tornando o antigo “Palácio das Maravilhas”, de “utilidade pública para fins de desapropriação”. Segundo a assessoria do Ipac, “já existe um pré-projeto para contenção imediata da estrutura” que se encontra sob ameaça de desabamento, embora não haja, ainda, recursos alocados para a intervenção. “Nosso objetivo é que o novo centro seja voltado para a promoção de artistas locais”, disse o governador.

A decisão de proceder a doação ocorreu no início de setembro, quando da última audiência promovida pelo MPE com o proprietário e representantes do Estado. Considerando a decisão de “aceitar a doação”, confirmada à Tribuna pela assessoria da Casa Civil, o promotor Sérgio Mendes disse que “caberá elaborar a documentação necessária”. Mendes adiantou “já dispor de uma minuta pronta para tal propósito que envolverá, ainda, um TAC-Termo de Ajuste de Conduta a ser firmado pelas partes envolvidas no processo”. Cláudio Valansi não aceitou participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento.

Em estado deplorável internamente, o imóvel vem sendo ocupado, sob respaldo do proprietário, há mais de 20 anos pelo ferreiro Valdemir Nascimento Costa. Ele tem oficina na Ladeira do Alvo, ao lado do cine-teatro e mesmo dispondo da chave que dá acesso às instalações, só permite a entrada de pessoas previamente autorizadas por Cláudio Valansi. O ferreiro disse ser “remunerado para manter o espaço sob controle”, embora garantisse não receber qualquer valor há bastante tempo. “O que me interessa é garantir a moradia. Para me tirarem daqui terão que oferecer algum lugar para morar, seja o dono ou o Estado”. Conforme Nascimento, “muitos estudantes universitários vêm aqui querendo conhecer a estrutura interna, mas como não têm autorização não libero a chave”, disse.


Vitral foi retirado pelo temor de desabamento do prédio

O vitral da fachada do Cine Teatro Jandaia, de 5 x 3,5 metros, foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, dado o risco de desmoronamento do prédio e face ao extraordinário valor artístico da peça a ser restaurada. “Parte dos vitrais chegaram intactos, outra parte recuperamos”, revelou Kathia Berbert, coordenadora de Restauro de Elementos Artísticos do órgão. A remoção foi orientada pelo professor da Universidade Federal da Bahia, José Dirson Argolo. As partes que compõem o vitral foram forradas com isopor e permanecem acondicionados em caixas de madeira. A peça artística foi idealizada pelo fundador do Jandaia, João Oliveira, tendo uma ave, a jandaia, em uma das mãos de uma figura feminina típica da Art nouveau

O prédio do Cine Jandaia é uma exemplar referência da arquitetura proto-moderna na Bahia. Concebido a partir de elementos da Art Déco, suas linhas seguem uma simetria com integração e articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Na decoração interna, alguns elementos decorativos recorrem, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia. A edificação foi erguida em estrutura de concreto armado, com fachadas revestidas em pó de pedra, sob grande quantidade de janelas venezianas, com bandeiras de vidro. Art Decó consiste em conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coeso, que se iniciou na Europa e se difundiu pelas Américas do Norte e do Sul, chegando ao Brasil, a partir da década de 20.

Os espaços internos registram a preocupação com a ornamentação estética do cine-teatro. O foyer recebeu revestimento de mármore rosa nas paredes, com moldura em mármore preto, guarda-corpo com desenhos em ferro, camarotes com contorno circular em metais e colunas, além de painéis em gesso com figuras mitológicas. A área da audiência possui grande rosácea no centro do forro e figuras femininas nas laterais do palco. Desde sua fundação, o Cine Teatro Jandaia foi palco de significativos eventos culturais, tanto na área da música quanto na do teatro, com apresentações de renomados artistas nacionais e estrangeiros, apesar da discriminação manifestada então pela elite soteropolitana, em decorrência de sua localização na Baixa dos Sapateiros (Rua J. J. Seabra), considerada de natureza popular quando confrontada com a Rua Chile, lugar elegante e preferido à época.

O Cine Teatro Jandaia atingiu a sua função cultural maior e, sem dúvida, de cunho bastante popular, com realizações de sessões de cinema pela manhã aos domingos e feriados, diariamente pela tarde (matinês) com dois filmes e à noite com exibição de apenas um único filme em duas sessões. O contador Walter Barreto disse ter frequentado a programação de cinema do Jandaia, desde criança e até a adolescência. Recordou filmes de karatê e disse que havia bastante público, inclusive competindo com o Cine Tupi, também na Baixa dos Sapateiros, que instalou ‘cinerama’, tecnologia de tela côncava com três projetores sincronizados. “Nada disso afastava o público cativo do Jandaia”, disse. Já em declínio em meados de 1970, assim como a maioria dos tradicionais cinemas do centro da capital, o Jandaia foi desativado na década de 80, estando atualmente em completo abandono. Trata-se, porém, do único dos cinemas de Salvador surgidos no período entre guerras que ainda mantém características originais. (AF)

Sinfônica da Bahia toca a “ópera da crise”

                     Fotos: Adenor Gondim/DivulgaçãoA Orquestra fantasiada de Super Heróis durante o Cine Conserto e para denunciar a grave condição do corpo artístico do TCA

 Albenísio Fonseca

Em busca de um novo prelúdio para a existência, a Osba-Orquestra Sinfônica da Bahia vem buscando atravessar a “ópera da crise” gerada pela grave situação que envolve sua manutenção há, pelo menos, 10 anos. Tal condição ainda tem se mostrado muito aguda. Mas a perspectiva é de que consiga superar a ameaça de um “grand finale” e alcance consagradora apoteose até o fim do ano. O maestro Carlos Prazeres e o secretário de Cultura Jorge Portugal têm audiência com o governador Rui Costa agendada para o próximo dia 4 de maio, quando apresentarão as demandas da Sinfônica.

O regente garante que a questão “tem recebido grande atenção por parte do governo”; que ele “tem consciência da crise” e que “quer ser parceiro na resolução das pendências e não um entrave”. Fez questão de acentuar, ainda, o quanto “temos sentido boa vontade por parte do governo e sabemos que não dá para virar uma Osesp-Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo da noite para o dia”. Lembrou, inclusive, que “já houve, em 2014, a iniciativa da gestão estadual em publicar no Diário Oficial um edital anunciando a intenção de publicizar a Osba, mas aí entrou a crise”, lamentou.

As dificuldades da Orquestra se agravaram em 2007, quando era regida pelo maestro Ricardo Castro e aventou-se a possibilidade da adoção do regime de “publicização”, uma espécie de PPP-Parceria Público Privado que consiste na  transferência  da gestão de serviços e atividades, não exclusivas do Estado, para o setor privado, assegurando à entidade autonomia administrativa e financeira. Os músicos, no entanto, não aderiram à novidade e a lenta agonia (quase em “moderato”, como diríamos de um andamento musical)  continuou pairando sobre esse corpo artístico do Teatro Castro Alves .

Em 2011, o maestro Carlos Prazeres assumiu a regência. O então secretário de Cultura, Albino Rubim, retomou a alternativa sobre o tema da publicização e promoveu seminários nos dois anos seguintes. Para tanto, trouxe a Salvador representantes de outras sinfônicas que haviam aderido a este tipo de gestão, como as de São Paulo, de Minas, Paraná e a da Petrobras, apontadas por Prazeres como “as maiores do País, juntamente com as de Porto Alegre e Brasília”. Os músicos da Osba acabaram convencidos de que a terceirização da gestão seria uma “tábua de salvação” no meio da oceânica tormenta, única forma capaz de proporcionar, digamos, um “allegretto” à orquestra criada em 1982, durante o primeiro governo Antônio Carlos Magalhães.

A Sinfônica durante apresentação no Casarão do MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia

Embora tenha gerado público e tornado suas apresentações bastante concorridas nesse meio tempo, a Sinfônica da Bahia, de acordo com o regente, “ainda que dispusesse de verba, carece de legislação que adeque o direcionamento para servir à música de concerto, desde as licitações em tempo hábil para aquisição de instrumentos de qualidade à disponibilidade da captação de recursos, mas a Osba não dispõe sequer de razão social própria”. Segundo Carlos Prazeres, “poderíamos até recorrer à Lei Rouanet, mas isso tende a chocar-se com outros projetos da Fceba-Fundação Cultural do Estado da Bahia, à qual a Sinfônica está subordinada”. Esse ano já promoveram a “Osba em Casa”, com o cantor e compositor Luiz Caldas e com a acordeonista Lívia Mattos, “trazendo a plateia para o palco do TCA, pois nossa capacidade sonora é similar à de um radinho de pilha”, ironiza.

Aporte de recursos – Acontece que a licitação para a publicização – que levará a Orquestra a ser gerida por uma OSIP-Organização Social de Interesse Público – requer aporte de recursos estimado em R$ 8 milhões e outros R$ 6 milhões para manter a sinfônica funcionando. Prazeres reconhece que “a crise financeira tem inviabilizado tais dotações” por parte do estado, mas garante que “vem sendo estudada uma redução nesses montantes”. De todo modo, destaca que “a organização que vier a assumir a gestão do corpo artístico é que vai dar as estimativas das  verbas  necessárias”.

Segundo o secretário de Cultura, Jorge Portugal, “a licitação será lançada ainda este ano. Já temos a Associação dos Amigos do Teatro Castro Alves como uma entidade interessada em assumir a Osba, embora isso vá depender das demais propostas a serem licitadas”. Conforme Jorge, “no atual modelo não podemos aceitar patrocínios de grandes empresas, enquanto com a publicização isso será viável, assegurará a orquestra e evitará o desembolso maior do estado”. Portugal salienta que “o Governo está sob contingência de verbas, operando no limite prudencial dos recursos no que pese a Lei de Responsabilidade Fiscal em decorrência mesmo da crise econômica e financeira em curso no Brasil”.

Orquestra permanece sem orçamento 

A área de Cultura vive sob certa penúria. A Osba permanece sem orçamento e a condição do Balé do TCA, outro corpo artístico do teatro e subordinado à Fceba, também é delicada, mas é certo que há ações estruturantes do governo no que tange às reformas e ampliações da Concha Acústica e da segunda etapa do TCA, além da aguardada conclusão das obras no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia (no Solar do Unhão).  O cenário esboçado pelo maestro Carlos Prazeres, todavia, ainda é o de que “a Osba hoje corre o risco de ter as apresentações inviabilizadas; de virar uma camerata [conjunto musical composto por poucos instrumentistas]. Dispomos de apenas 53 músicos, dos quais 10 são contratados através do Reda e já tendo que ser revalidados pois completaram os dois anos. O mínimo é que dispusesse de 80 integrantes e o ideal, 100”.

Ele demonstra que “atualmente, a estrutura da sinfônica envolve cinco flautas e quatro primeiros violinos, quando o normal, para poder tocar com cinco flautas, seria dispor de 12 a 14 violinos”. Isso significa, esclarece, que “não podemos tocar inúmeras peças. Os repertórios romântico e moderno que se toca com cinco flautas jamais pode ser feito com apenas quatro violinos”. A Sinfônica tem se mantido ativa, principalmente, com as criações de quatro cameratas, integradas por músicos da orquestra e com apresentações em diversos locais da cidade e no interior do estado até duas vezes ao mês.

Músicos recorrem à criatividade 

Para superar esse período, a orquestra tem recorrido à criatividade. Em outubro de 2015, quando viu a necessidade de dar visibilidade à condição da Sinfônica, adotaram fantasias de super-heróis quando da apresentação do Cine Concerto, em que tocaram temas de diversos filmes de sucesso. A última apresentação com estrutura completa da Sinfônica aconteceu em dezembro passado no “Natal para as Mulheres”. Antes, enfatizou, “tocamos na Praça das Mãos (na área do Taboão) para as pessoas em situação de rua, com uma tenda improvisada como palco e distribuímos plásticos para as pessoas não sentarem diretamente no chão”. Ou seja, defende o regente, “a orquestra tem saído do pedestal, dos espaços internos dos teatros, para ir aonde o povo está”.

Ele revelou as perspectivas que tem para o segundo semestre, “com projetos criativos mesmo com o corpo artístico deficitário”. Disse estar sendo preparada uma “peça-concerto” sobre “Gregório de Matos e a musicalidade barroca”, com participação do diretor teatral Gil Vicente Tavares e adiantou que  que vem mantendo conversas sobre o interesse em retomar o Sarau da Osba, com o diretor do MAM, Zivé Giudice, e que “envolve poesia, dança, teatro, literatura e a música clássica”. Acenou, também, com a “possibilidade de promover uma “feira expositiva” para crianças no Palacete das Artes (na Graça), já esboçada para o diretor Murilo Ribeiro, na qual seria “estimulada a interação delas com os instrumentos, inclusive com apoio de psicólogos, até desembocar em um concerto destinado ao público infanto-juvenil”.

Carlos Prazeres aludiu, além do mais, ao “estudo de projeto especial para uma ocupação do MAB-Museu de Arte da Bahia” (no Corredor da Vitória), também em conjunto com o diretor Pedro Archanjo, assegurando que “quando entramos em um espaço buscamos dialogar potencializando a capacidade daquele universo”.  Com a publicização ele planeja a interiorização. Prazeres disse querer formar plateias nas cidades da Bahia para a música erudita, inclusive tocando compositores da escola baiana como Lindemberg Cardoso, Walter Smetak, Ernst Widmer (já falecidos) e outros como Paulo Costa Lima, Alexandre Espinheira, Natan Albuquerque. “O desejo é proporcionar essas audições para as novas gerações e provar que a Bahia é uma grande reunião de culturas e de formas de expressão”.

A Osba já teve a regência de conceituados maestros, como Isaac Karabtchevsky, Jacques Morelenbaum, Osvaldo Colarusso, Alex Klein, Olivier Cuendel. Conta com apresentações ao lado dos balés Kirov, Bolshoi e da Cidade de Nova Iorque e já se apresentaram com a orquestra o tenor lírico Luciano Pavarotti, a soprano lírica Montserrat Caballé  e a mezzo soprano dramática Milla Edelman, além da brasileira Gal Costa, entre outros.

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
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Albenísio Fonseca é jornalista

Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

Rei do rock tornou-se em Rei Momo no Asilo

                                                                                                              Foto: Romildo Jesus
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Precursor do Rock’n’roll na Bahia e radialista por 20 anos, Waldir Serrão, o Big Ben,
foi obrigado a ir viver no Abrigo Dom Pedro II, ao lado Cine Roma, um dos palcos em que reinou

Waldir Serrão

Rei do rock tornou-se em

Rei Momo no Asilo

ALBENÍSIO FONSECA
 Aos 74 anos, Waldir Serrão – precursor e Rei do Rock’n’roll na Bahia no início dos anos 60 – tornou-se em Rei Momo do Carnaval no Asilo Dom Pedro II. Na terça-feira (10.02.2015) ele comandou o Baile de Carnaval da instituição ao som da banda de Cristine e Coringa. Serrão, que boa parte do público conhece pelo nome artístico de Big Ben, está há dois anos nesse tradicional abrigo para idosos da cidade. “Mesmo sendo candidato único no concurso que o elegeu Rei Momo, para ele, ter sido eleito “foi uma surpresa”, brinca, garantindo que “quem foi rei sempre será majestade”.
Na segunda-feira (9) pela manhã, ele e a Rainha da Folia, Lúcia, comandaram o desfile de Carnaval no interior do abrigo, ao som da Banda da Guarda Municipal. Para Waldir Serrão, há uma “enorme diferença” entre Carnaval e Rock’n’roll. “Mesmo os festivais de rock eram completamente diferentes”. Segundo ele, “o Carnaval não tem a mesma variedade musical e cultural do rock. A turma do Carnaval só pensa em ganhar dinheiro, no ambiente do rock não é bem assim”, acredita.
Sem oportunidade de trabalho nas emissoras de rádio baianas, Serrão passou a enfrentar dificuldades. Graças a um irmão, conseguiu sua aposentadoria como radialista, ele que sempre foi um dublê de cantor e homem do rádio. Antes do Pedro II, passou uma temporada no Abrigo São José, na Ladeira dos Bandeirantes, de onde saiu para a casa de uma ex-namorada, Solange, no Dique do Tororó, a quem se diz muito grato. “Ela não admitia que eu viesse a passar fome e me proporcionou alimentação e abrigo durante uns oito meses”, ressaltou.
Cine Roma e Elvis Presley
“É uma enorme coincidência que eu esteja aqui, ao lado do Cine Roma, o principal palco da história do rock na Bahia. Estou no Pedro II graças à força de Carlos Pitta e Jerry Adriani. O Governo do Estado nunca me proporcionou nada”, afirma. Sobre o fato de ter não ter feito poupança para garantir um futuro tranquilo, Waldir Serrão – com a mesma voz que badalou por 18 anos o programa “O Som do Big Ben” em emissoras de rádio e tevê de Salvador – diz que gastava muito. “Banquei muitos shows que não deram o retorno imaginado. Passei um mês nos Estados Unidos. Conheci Memphis, no Tennesse, a terra em que Elvis Presley nasceu e um dos berços do rock’n’roll. Conheci a casa e o túmulo dele em Graceland. Elvis foi meu principal ídolo”, conta.
A paixão de Waldir Serrão por Elvis Presley sempre foi tanta que, pai de um casal de gêmeos, não hesitou em colocar o nome dos filhos, já com 39 anos, “Elvis” e “Sylvia” (título de uma canção, sucesso na voz do Rei do Rock mundial). Outra paixão dele foi a cantora norte-americana Barbra Streisand. “Tinha todos os discos dela”, revela. Do mesmo modo que a voz, a memória de Serrão também permanece acesa. Recordou de parceiros do tempo do Rádio, dos fã-clubes que ajudou a fundar na cidade. “Não era só de Elvis, tinha os de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Jerry Adriani”, lembra sem esforço.
Roqueiro cantando MPB
“Imagine, eu, roqueiro, agora estou cantando MPB no Coral Menino Jesus, cujas atividades estão suspensas por causa do Carnaval”. A conversa com Waldir Serrão é divertida e ele cobra a visita dos amigos roqueiros, “inclusive com doações para os demais idosos do Asilo Pedro II”. Ele revela que sempre que pode dá uma fugida. “Vou visitar meu filho Elvis, que também canta, mas na Igreja Batista de Pernambués. A mãe proibiu ele de cantar rock pois, segundo ela, é música do diabo”. Ele aproveita, também, para ir ver a namorada Nilda, “com quem mantenho uma relação afetiva há 10 anos”.
Sobre Raul Seixas, disse que “no início de toda essa aventura do rock’n’roll na Bahia, nós éramos ao mesmo tempo parceiros e concorrentes. Eu tinha a banda Waldir Serrão e seus Cometas e ele a Raulzito e seus Panteras. Tudo acontecia aqui entre Roma e a Boa Viagem. A Cidade Baixa era a capital do rock em Salvador. Tanto eu como Raul fomos influenciados pelo cinema em filmes como “Sementes do Ódio” (com James Dean) e “No balanço das horas” (com Billy Halley e seus Cometas). Tocávamos nos clubes sociais. Lembro sempre de uma apresentação nossa no Fantoches da Euterpe, no 2 de Julho”, recorda.
Pique para voltar ao rádio
Após ter atuado como radialista de 1964 a 1984, Serrão não titubeia: “Tenho pique para voltar a apresentar shows e programas de rádio. O Mário Kértesz prometeu me ajudar com um emprego na Rádio Metrópole, onde trabalhei 10 anos com o programa “Inclusão Social”, que tocava música gospel e country, mas até hoje não cumpriu a promessa”, cobrou.
Na rotina dos últimos dois anos, após o café da manhã no Pedro II, ele participa de atividades junto aos demais idosos. “Alguns preferem artesanato, aulas de canto, jogos. Eu gosto de desenhar e pintar. Aqui tenho liberdade e posso descansar, ouvir os pássaros cantando no jardim”, revela com o mesmo entusiasmo de sempre.

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Porque hoje é Dia de Rock

Ora, quem diria, o eterno e atemporal rock and roll ficou sex. Sim, em 2015 o ritmo que mudou o mundo e fez florescer outras tantas musicalidades ficou sexagenário.

Ainda que várias incursões anteriores criassem as matrizes desse gênero musical que transformaria a cabeça e o corpo da juventude desde o final dos anos 40 – filho que é do pós-II Guerra – é a partir de 1954, com o surgimento de Elvis Presley, que o rock invade totalmente a cena e a face branca da sociedade norte-americana e mundial.

Os anos 50 marcam um período de grande efervescência nos Estados Unidos. Os sucessos da música negra – gospel, blues, jazz, folk – identificados de modo geral como rythm’n’blues (R&B), encontravam como único meio de penetração no mercado pop (composto pelo público branco) sua expressão através do cover (regravações de originais).

O interesse comercial está sempre dando as cartas e, para conquistar o mercado branco, o R&B passou a sofrer adaptações que iam desde a moderação no linguajar das letras à modulação das vocalizações, seguindo normas vocais e morais brancas. Em 1952 acontece, também, o fim do macartismo (política moralista defendida pelo senador McCarthy).

É nesse contexto, no início dos anos 50, que o cover emerge e, entre seus principais expoentes, destacam-se Dorothy Collins, Pat Boone e Bill Halley. Os dois primeiros se projetariam com “ballads”, mas Bill Halley se especializaria em covers. Após muitas audições de R&B, ele decide formar sua própria banda, a The Comets.

Nesse mesmo ano, Alan Freed, um Disc-Jockey (DJ) de Cleveland, cria o programa de rádio “Moondog’s Rock and Roll Party”, no qual tocava covers e alguns originais R&B. Tamanho foi o sucesso do programa que, no ano seguinte, Freed organiza uma série de shows com artistas negros, mas destinados aos jovens brancos. Em 1954 ele se instala em Nova Iorque e, junto a diversos outros DJ, passa a tocar sucessos negros aceitos pelos brancos.

Era a hora e vez de Bill Halley. Através da Decca, gravadora de âmbito nacional que o havia comprado da Essex, ele se mantém com “Shake rattle & roll”, durante todo aquele ano, na parada de sucessos, as dez mais – The top ten. Foi só esperar a primavera de 1955 para estourar a parada com “Rock around the clock” que, poucos sabem, é um cover de “Let’s rock awhile”, de Amos Millburn e, pasmem, datado de 1949. Vale lembrar que na gíria dos guetos, “to rock” designava o ato de fazer amor, do mesmo modo que “to jazz”.

Nova tecnologia: o disco de vinil

Havia, ainda, uma nova tecnologia invadindo o mercado e alterando os discos de gomalaca, em 78 rotações por minuto, desde 1948, para o de vinil, em 45 RPM, ampliando de forma maçiça o consumo de música nos States e mundo afora. A tecnologia – como vemos hoje – funcionara, por si só, como um novo dispositivo de marketing: oferecia-se à nova geração outra linguagem musical e dança, sob novo suporte para a audição e, incluída, várias tendências no vestuário, literatura, cinema, criando um novo tipo de consumidor.

Em 1955, explode o sucesso “Tutti frutti”, de Little Richard.  Uma nova cria de Sam Phillips, da lendária Sun Records, Carl Perkins ganha o primeiro disco de ouro do rockabilly (rock+Hill+Billy – mistura de rock com folk) com “Blue suede shoes”, já em 1956. Um desastre de automóvel seria fatal para Perkins. Jerry Lee Lewis, nova descoberta de Sam e que já se apresentou no Brasil, fazia loucuras com seu piano. Até hoje Lewis é apontado como a maior performance do rock’n’roll, embora sua popularidade esteja restrita a três hits: “Whole lotta shakin’going’on”, de 57, “Great balls of fire” e “Highschool confidential”, em 1958.

Dois anos antes, acontecem os esplendorosos sucessos dos rock baladas. Com os Platters, “Only you” e “The great pretender”. Dois anos depois, “Diana”, com Paul Anka, que venderia de saída nove milhões de cópias. Pintavam, ainda, no fim dos anos 50, promovida pela RCA e pela Columbia, a efervescência do calipso (oriundo da Jamaica) e do twisty, com Chubby Checker.

A partir de 1964 acontece a “invasão britânica”. Os sucessos de The Beatles e The Rolling Stones – e a minissaia, criada pela estilista Mary Quant, em 1964 – sacodem o planeta.  Em 65, surge, na Califórnia, o The Doors, liderado pelo gênio alucinado de Jim Morrison. Nessa época, as drogas eram comuns no rock e Morrison, como Brian Jones, dos Stones – vorazes consumidores – acabam morrendo de overdose, aos 27 anos. Americanos também foram fundo nas drogas e morreram de overdose, com a mesma idade: o gênio da guitarra Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin.

Se em 1967, com o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, os Beatles revolucionam a concepção musical do rock, em 69 o Festival de Woodstock mobiliza um público de 500 mil pessoas, em três dias de paz e amor, numa espécie de apogeu do universo rock.  Mas no dia 6 de dezembro daquele ano, em Altamont, na Califórnia, a apresentação dos Rolling Stones traz de volta o clima de violência. Um hells angels – grupo de motoqueiros contratados para a segurança do show – mata um jovem da plateia que teria derrubado sua moto.

Psicodelia, glamour e punk rock

Em meio à psicodelia, glamour e punk rock, a década de 70 estourou alguns movimentos que já estavam em prática nos anos 60. Um deles foi o rock progressivo, em composições que muitas vezes se aproximam da música erudita. Os músicos eram virtuoses e o som, viajante. A banda mais famosa dessa época é a Pink Floyd.

“Outra vertente do rock dos anos 70 tem o heavy metal e sua quase alma gêmea: o hard rock. Com roupas de couro pretas, cheias de tachinhas, cabelos compridos e guitarristas metidos a semideuses. Muitas bandas exploravam o tema do satanismo e arregimentava uma legião de fãs adolescentes. Foi daí que surgiram o Black Sabbath, de Ozzy Osbourne, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, Kiss, Alice Cooper, AC/DC e muitos outros. O Led Zeppelin também trafegava nessa praia, com um pouco mais de poesia, com a ótima parceria entre Robert Plant e Jimmy Page”, como descreve a jornalista Maira Cristina.

– De outro lado, surgia um rock glamouroso em que a androginia era parte do visual, ao carregar na maquiagem, roupas espalhafatosas de plumas e lamês. Era o glam rock ou glitter (purpurina). Aqui, aparece o camaleão do rock: David Bowie, que, em 1972, lança o personagem Ziggy Stardust e vira uma lenda da música pop. Dessa leva glam também vem o excêntrico Roxy Music, de Brian Ferry e Brian Eno; o T-Rex, de Marc Bolan, e os alucinados rapazes do New York Dolls, que se vestiam de mulher e tocavam como loucos.

Maira sinaliza a chegada dos anos 80 “com um restinho de onda punk. Mas o gosto de ressaca estava no ar”. A nova geração, segundo ela, “vinha cheia de melancolia, com uma rebeldia mais triste, sombria e solitária. Nas letras, muitas vezes niilistas, um lirismo que representava muito bem o sentimento dos jovens da época. Era o pós-punk. De Liverpool, vinha o Echo and The Bunnymen, e de Manchester, o Joy Division, com toda a tristeza do vocalista Ian Curtis, que se enforca, aos 22 anos de idade. O resto da banda formaria a New Order. Darks e góticos também eram bem representados pelo Sisters of Mercy, The Mission, The Cult e Bauhaus.

Na contramão de toda aquela badtrip, surge a “New wave”, com música alegre, para dançar. Trazia roupas coloridas, gel no cabelo e muita alegria, como o B’52 e o Talking Heads, de David Byrne. As três bandas mais famosas nos anos 80 foram The Cure, The Smiths e U2. Segundo Maira, o Cure tinha aquele visual dark, só usava roupa preta, batons escuros, maquiagem e cabelos arrepiados. Era a rapaziada liderada por Robert Smith. The Smiths, considerada por muitos como a melhor banda dos 80, apostava no lirismo das letras de Morrissey e nas guitarras de Johnny Marr. Os irlandeses da U2 desde o começo traziam uma preocupação política nas letras como em “Sunday blood sunday”.

Elvis, o primeiro superstar

Primeiro superstar do planeta, o furacão Elvis Presley (1935-1977) inicia sua ascensão, em 1954, com “Thats all right mama”. Tão logo a popularidade dele – que viria a tornar-se o Rei do Rock” – ultrapassa as fronteiras do Tennessee, a RCA Victor compra-o de Sam Phillips (da Sun Records) por nada menos que US$ 30 mil e mais um cadillac para o cantor. Em 1957, o “negócio Elvis”, administrado pelo “colonel” Parker já rendia US$ 20 milhões ao ano.

Elvis Presley

Também conhecido como Elvis The Pelvis, apelido pelo qual ficou conhecido na década de 50 por sua maneira extravagante e ousada de dançar, foi um dos pioneiros e principais idealizadores do rock and roll. Uma de suas maiores virtudes era a voz, devido ao alcance vocal, que atingia, segundo especialistas, notas musicais de difícil alcance para um cantor popular.

A crítica especializada reconhece seu expressivo ganho, em extensão, com a maturidade; além de virtuoso senso rítmico, força interpretativa e um timbre de voz que o destacava entre os cantores populares. Para muitos, ele é avaliado como o melhor cantor popular do século 20.

Um dos maiores ícones da cultura popular mundial do século passado, entre seus maiores sucessos musicais (ele atuaria também no cinema) podemos destacar “Hound Dog”, “Don’t Be Cruel”, “Love me Tender”, “All Shook up”, “Teddy Bear”, “Jailhouse rock” “It’s now or never”, “Can´t Help Falling In Love”, “Surrender”, “Crying In The Chapel”, “Mystery Train”, “In The Ghetto”, “Suspicious Minds”, “Don’t Cry Daddy”, “The Wonder Of You”, “An American Trilogy”, “Burning Love”, “My Way”, “My Boy” e “Moody Blue”. Se quiser re-ouvir, estão todas disponíveis no Youtube.

Rock’n’roll faz 50 anos na Bahia

 

Waldir Serrão e Os Jorman’s durante apresentação
50 anos na Bahia
O rock’n’roll invade a cena 
 
ALBENÍSIO FONSECA
O rock acontece na Bahia bem antes dos Beatles. Com Elvis Presley. Em 1965, todos os domingos pela manhã no Cine Roma, Waldir Serrão invade a cena badalando o som na Rádio Cultura. Começam a surgir bandas de rock, os conjuntos de iê iê iê (fenômeno ocorrido apenas no Brasil e que se apropria do refrão de “She Loves you”, dos Beatles). Serrão atribui a ele o uso inicial, em Salvador, de expressões como “banda” e “pauleira total”.

Entre os inúmeros conjuntos (que era o termo usual para designar as bandas), destacam-se: Waldir Serrão e seus Cometas (grupo de cover dublado), Raulzito e seus Panteras, The Gentleman,  (com Pepeu e os irmãos Jorginho e Carlinhos), Eles 4, 5 Loucos, The Jormans, The Jetsons, Brasa Bossa, Dedos de Ouro, Os Selvagens, Os Desafinados, MJ6. Apresentavam-se em bailes, nos diversos clubes sociais da cidade (Estância Campomar, Piatã Clube, Português, Baiano de Tênis, Associação Atlética da Bahia), também no Cinema Roma e em programas da TV Itapoan, produzidos por Domitila Garrido e Cid Seixas.

Só para Brotos. 1965. Aumente o rádio. Idealizado por Newton Moura Costa e apresentado por Waldir Serrão (que cedia os discos) o programava contava, também, com Jayme Fahel, Almir Duarte, Diniz Oliveira. “Entre 59 e 62 o que tocava era Elvis Presley, Cely Campelo, Neil Sedaka, Paul Anka, Little Richard, Carlos Gonzaga, Demétrius, Sergio Murilo, Ronny Cord”, recorda Waldir Serrão. Da origem, nos Estados Unidos, o rock’n’roll já comemora 60 anos de estrada.

“O programa funcionava com entrevistas, cartas, telefonemas”, explica Serrão. Com a explosão dos Beatles e da Jovem Guarda aconteceram muitos shows no Ginásio Antonio Balbino, o Balbininho. “O Big Boy é que me deu o toque para fazer um programa igual ao dele na Rádio Mundial, no Rio de Janeiro. Muito Elvis e Beatles, era a receita”, conta.

1966. Acontece o boom total, a Guaraná Platense promove shows de Roberto Carlos, Elis Regina, Zimbo Trio, Cauby Peixoto, Angela Maria, Wanderléa, Jair Rodrigues. O palco era sobre um caminhão, no estádio da Fonte Nova.

1967. Aos sábados, Elias Sobrinho comandava o “Sabatinas da Alegria”, programa com shows promovidos por Edmundo Viana e Waldir Serrão (Big Ben e a banda Bigbendes, desde então) no Cine Nazaré, com auditório lotado e transmissão ao vivo, pela TV Itapoan. Ao lado da cena rock, havia, ainda, a presença dos sambistas acontecendo simultaneamente: Tom e Dito, Antonio Carlos e Jocafi, Berimbau, Riachão, o maestro Carlos Lacerda. Era efervescente o cenário musical da cidade à época.

O Som do Big Ben passou para a Rádio Bahia, onde permaneceu por cinco anos. Depois na Tv Itapoan, rádios Sociedade, Excelsior, Cultura, Clube. E existiam também os fãs clubes: Elvis Rock Club, na Boa Viagem, onde se ensinava a dançar rock e twisty; Elvis Today Fã-clube; Imperial Rock Clube, na rua Saldanha da Gama.
São nomes marcantes desse período, ainda, as estrelas do iê iê iê: Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Os Vips, Leno e Lilian, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, todos em apresentações concorridas no Balbininho. Os superstars se hospedavam no Palace hotel e os fãs paravam a Rua Chile. Há que se mencionar, também, David Barauh, Plínio, irmão de Raul, Thildo Gama, Gino Frei, Bartilloti e Nilton Papaum, o primeiro beatnik baiano; Os Mustangs, Edy Star. Dos anos 70, emergem: Mar Revolto, Creme, 19º Colapso Nervoso, Pulsa, Armazens Gerais…Com um histórico repleto de nomes de peso nacional, a produção roqueira baiana não pararia mais: de Raul Seixas a Pitty, passando por Novos Baianos, Camisa de Vênus, Cabo de Guerra, Maria Bacana e Penélope, entre tantos outros. Era (e continua sendo) apenas rock’n’roll, mas todos gostam.

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