Da bienal ao caos. Ou, deixe para amanhã, você está no MAM!

 

                                                                                                                   Fotos: Albenísio Fonseca
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Parque das Esculturas, como o Solar, permanece relegado ao abandono e interditado ao público

 

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Em plena Baía de Todos os Santos, também exangue, espaços nobres do MAM estão à revelia

Equipamento construído no século XVI, de fundamental importância histórica, turística e cultural para Salvador, o Solar do Unhão, na Avenida Contorno, onde está instalado o MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, permanece sob obras de reforma que se arrastam há quase cinco anos. Os trabalhos deveriam ter sido concluídos para a Copa das Confederações, em 2013. Foram adiados para a Copa do Mundo, um ano depois, mas atravessam os governo Jaques Wagner e Rui Costa, em injustificável protelamento, exceto pelo total desinteresse do Executivo Estadual.

Não há como deixar de reconhecer a relevância do equipamento. Mas o estado, ou seu síndico de plantão, demonstram abdicar da solução de continuidade da reforma, como, do mesmo modo, levou ao desabamento do Centro de Convenções da Bahia e mantém em abandono os parques metropolitanos do Abaeté e de Pitauçu. O descaso, além de tolher eventos como a Bienal, ressuscitada e rematada, configura atitude na qual o que sobressai é apenas um estado de caos, à revelia do interesse público e mesmo para com os trades turístico e cultural.

É intransferível a responsabilidade do governo por esta inaceitável condição à qual o Museu foi relegado. Dirigido por cinco gestores que se sucederam nos últimos 11 anos, às expensas da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, é correto afirmar que “o MAM e o Solar se sobrepõem, em importância, até mesmo ao TCA-Teatro Castro Alves, guardadas as diferenças que demarcam as respectivas atividades desse dois significativos espaços”, como estipula o diretor Zivé Giudice, reconduzido recentemente ao cargo.

A reforma no Museu está paralisada há 10 meses e não há perspectiva de quando será retomada. A alegada paupéria das finanças estaduais não absolve o executivo, à medida que se trata de obra prevista em orçamento. Chegou-se a acenar com a liberação de R$ 7,7 milhões, mas ficamos na “conta dos 7”. A duras penas e de forma extremamente precária, permanecem em funcionamento o Salão do Solar, cujo mezanino, também criado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em 1963, está interditado, dada a quantidade de goteiras; o pequeno salão na parte inferior do equipamento, a Capela e o Galpão das Oficinas de Arte, crucial para o viés didático promovido há quase 40 anos para jovens, crianças e adultos.

À frente da Baía de Todos os Santos, também exangue, apesar da disponibilidade de recursos do Bird, na ordem dos US$ 68 milhões, outro espaço nobre da instituição, o Parque das Esculturas – do mesmo modo interditado ao público pela paralisação dos serviços da empreiteira, contratada sob licitação mas sem obter o repasse de recursos – é tratado sem a responsabilidade que se espera e exige-se dos governos para com o patrimônio, ainda que contemple painéis, esculturas e instalações de artistas, não só baianos, mas nacionais e internacionais.

Os extraordinários acervos de artes visuais e bibliotecário de que o MAM é detentor, por sua vez, estão relegados ao improviso de um canto qualquer, vale dizer, sem que se possa observar o cuidado das mínimas condições de preservação, a revelar forma indigna do compromisso público para com a Arte, a Cultura e a circunscrever, no limite da tolerância, um “território sem identidade”.

Aliás, convertido pelo Ipac em palco para espetáculos musicais ensurdecedores, dado o volume de decibéis e sem qualquer diálogo com o mundo das artes visuais, os shows na área externa, parecem obedecer, como e diria de um inaudível paradoxo, ao despropósito de comprometer as estruturas do já combalido Solar. Chame o síndico, ou deixe para amanhã, você está no MAM!

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Chame o síndico, confirmado que é o governador, Tim Maia!

 

 

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O PODER DOS JOGOS E OS JOGOS DE PODER

CIDADES E MEGAEVENTOS
Professora baiana ganha melhor tese nacional e lança livro em Salvador e no Rio

Albenísio Fonseca

 image Nelma Gusmão, melhor tese nacional sobre política e planejamento urbano

A melhor tese de doutorado na área de política e planejamento urbano no biênio 2011-2012, de acordo com a Anpur-Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional, acaba de ser publicada em formato de livro.

A autora, Nelma Gusmão de Oliveira, é professora da UESB-Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Itapetinga . “O poder dos jogos e os jogos de poder: interesses em campo na produção da cidade para o espetáculo esportivo”, é o título do livro resultado de uma parceria entre a Editora da UFRJ e a Anpur.

Nelma Gusmão estará na Livraria Cultura, em Salvador, no próximo dia 3 de agosto, às 18h, para o lançamento da publicação que atravessa a produção de conhecimentos em áreas como arquitetura e urbanismo, economia, política, sociologia, história e desportos, entre outros. De Salvador ela segue para o Rio de Janeiro, cidade foco da tese, onde faz o lançamento dia 6 de agosto, às 19h, na Livraria da Travessa, Rua Visconde de Pirajá, 572, em Ipanema.

Ela recebeu o concorrido VIII Prêmio Brasileiro “Política e Planejamento Regional”, pela abordagem desenvolvida sobre a natureza dos megaeventos esportivos e suas relações com as cidades contemporâneas.

A tese foi apresentada no Ippur-Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. A pesquisa foi desenvolvida no próprio Ippur e na École de Design da Université Du Québec à Montreal, no Canadá, onde fez estágio doutoral vinculado ao Programe dês Futurs Leaders das les Amériques, promovido pelo governo canadense.

O estudo explora as relações de poder que envolvem o universo em que se produz o espetáculo esportivo, notadamente a Copa do Mundo de Futebol, os Jogos Olímpicos e aquele em que se produz a cidade. O recorte da pesquisa se concentra especialmente na análise das rupturas e realinhamentos produzidos na dimensão político-institucional e, de modo especial, na ordem jurídica dos países e cidades que recebem este tipo de evento.

O argumento por ela apresentado, com base em ampla documentação e narrativas de agentes relacionados ao mundo dos esportes, é o de que ao se constituir como universo social relativamente autônomo em relação a pressões externas, o campo no interior do qual se produz o espetáculo esportivo funciona como meio para submeter a cidade e seus habitantes ao campo econômico.

Ao aprofundar-se sobre o tema, em que pese a complexidade no entendimento dos “processos territoriais envolvidos na produção dos megaeventos esportivos”, a autora mergulhou fundo em toda a evolução das regras das instituições que o promovem e dos mecanismos que criaram para controlar as cidades.

Para tanto, pesquisou a documentação por eles produzida durante mais de um século. Ao cruzar estas informações com acontecimentos políticos e econômicos na escala mundial, ela conseguiu realizar uma “genealogia do espetáculo esportivo” e, através da análise de mudanças nas dimensões política e jurídica nos países que receberam os eventos nas últimas décadas, ela observa como essas regras se materializam nos diferentes territórios.

Com isso, e municiada por uma plêiade de autores contemporâneos como Bourdieu, Zizek, Agamben, Vainer, Rancière, Stavrides, Swyngedouw, Logan e Molotch, ela discorre sobre a “produção espetacular dos megaeventos esportivos que atingem, na atualidade, uma audiência em torno dos 4 bilhões de espectadores, distribuídos por 220 países e sua convergência com a produção do espaço urbano dentro dos marcos do modelo neoliberal”.

Afinal, como se produz o espetáculo esportivo?
 
Quais são os interesses e as disputas envolvidas em sua produção nas diferentes escalas de espaço e tempo? Qual o papel das cidades anfitriãs? Que bases conferem a esse espetáculo o poder de produzir rupturas tão profundas no tecido social das cidades e países por onde passa? E mais, em que medida e de qual modo sua realização viabiliza a produção de formas autoritárias de exercício do poder e de organização da administração pública?

As respostas a essas e outras questões norteiam a premiada tese, agora convertida em livro. Nelma Gusmão de Oliveira nos leva a constatar, em meio à realização dos megaeventos, a existência de “cidades de exceção” facilitadas pela crescente autonomia política e jurídica gradualmente conquistada pela produção do espetáculo esportivo, “na medida em que se submetem ao campo econômico, em uma delicada costura que atravessa mais de um século e assume como principais protagonistas o COI-Comitê Olímpico Internacional e a FIFA- Federação Internacional de Futebol”.

Nas palavras da autora e de acordo com Cibele Saliba Rizek, professora do IAU/USP que presidiu o Júri de Teses do VIII Prêmio Brasileiro “Política e Planejamento Urbano e Regional”, na contracapa do livro: “Não é a produção do espetáculo esportivo que instaura a exceção, mas, de forma inversa, é a exceção que, ao se estabelecer como paradigma de governo atrelado ao modelo econômico neoliberal, cria as condições para a conversão da busca pelos megaeventos esportivos em estratégia de desenvolvimento. Uma vez instalada, tal estratégia vem, por sua vez, possibilitar uma radicalização da exceção que poderá se estender para além da realização dos eventos”.

A adequação entre as políticas de atração dos megaeventos e as teorias e práticas urbanísticas voltadas para o mercado têm sido assunto recorrente na literatura que trata dos estudos urbanos na contemporaneidade, seja do ponto de vista da sua apologia, seja numa perspectiva crítica.

Boa parte do estudo, entretanto, privilegia uma abordagem sobre a produção do espaço urbano. O entendimento de como se opera o encontro desses dois sistemas de produção – o do espetáculo esportivo e do espaço urbano – vistos a partir de uma perspectiva que leva em conta o funcionamento do primeiro, conferem, sem dúvida, singularidade marcante ao trabalho da autora.
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Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
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Albenísio Fonseca é jornalista

Afoxés – Anunciadores do futuro

fotoAfoxé Filhos de Gandhy – foto histórica com estivadores do porto de Salvador

Afoxés, a estratégia do

candomblé no Carnaval

Albenísio Fonseca

Enquanto escolas de samba cariocas como a Portela e a Imperatriz Leopoldinense, ou a paulista Mocidade Alegre, consolidam espaço na mídia tendo Salvador (a mítica “cidade da Bahia”), a literatura de Jorge Amado e as festas populares como temas, 23 afoxés, em Salvador – com proposições lúdicas e sócio-educativas similares à das agremiações carnavalescas do Rio e São Paulo – enfrentam dificuldades para botar o bloco na rua.

A singularidade dessa manifestação cultural, originada na Bahia e consolidada no estado como patrimônio imaterial desde novembro de 2010, não surgiu como mero entretenimento. Trata-se de uma expressiva estratégia da comunidade negra para escapar à intolerância religiosa da época e professar (tanto quanto preservar) o candomblé.

A reação partiu de um grupo de estivadores do porto de Salvador, reconhecidos como ogans (personalidades que se destacam na sociedade iorubá). Decididos a buscar alternativa para brincar o Carnaval, consultaram um babalorixá. Conta-se que este teria jogado os búzios (Ifá) e a mensagem advinda foi a de que deveriam sempre fazer oferendas a Exu (mensageiro dos orixás) e que o agrupamento deveria se chamar Afoxé (“que o futuro se cumpra”).

Criminalizado pela igreja e pelo estado, o candomblé era proibido de ser praticado. Ou seja, como não podiam proceder em casa os rituais aos orixás, inquices e voduns, com seus toques, cantos, oferendas e dialetos, adotaram o momento do Entrudo (como então era denominado o Carnaval) e o território das ruas em festa para expressão da fé e, convenhamos, surpreendente exercício de cidadania.

O afoxé Embaixada da África foi o primeiro cortejo negro a desfilar pelas ruas da Bahia, em 1895, em pena República, mas, sem duvida, ainda bem próximo dos legados do regime imperial e seu sistema escravocrata. Desfilou utilizando indumentária originária da África. No ano seguinte, surgiria o Pândegos da África, depois o Folia Africana. Logo, a Baixa dos Sapateiros se converteria em sua principal passarela.

Em suma, os afoxés têm raízes nas congadas e folguedos das senzalas, surgem como táticas de resistência do candomblé, de defesa da raça negra, e se expandem após a Abolição. Saídos das favelas e quartos de criados, já em 1920 o Congos d’África se configuraria em “colossal candomblé a perambular pelas ruas”, na definição de Nina Rodrigues.

Legado de três gerações, o Congos d’África fora criado pelo velho Reginaldo, o Dodô, na área do Dique do Tororó – um território sagrado para o “povo de santo”. Ressurge sob nova denominação, Filhos do Congo, fotografado por Pierre Verger, em 1948, e resgatado por Ednaldo Santana, o Nadinho, em 1979, no que se poderia considerá-lo o mais antigo dos afoxés.

Mas a manifestação não se restringe ao Carnaval de Salvador. Há afoxés em municípios baianos (Feira de Santana, Alagoinhas e outros) e em capitais do país, oito dos quais no Rio de Janeiro, quatro em São Paulo, cinco em Sergipe, dois no Rio Grande do Sul, três em Santa Catarina e 30 em Recife, num total de 148 agremiações em todo o Brasil, a seguir o ritmo ijexá.

A formação original dos afoxés envolvia arautos e fanfarra que anunciavam a passagem do préstito com instrumentos como trombetas, trompetes e clarins; guarda branca, rei, rainha, babalotin, estandarte (geralmente bordado a fios de ouro), guarda de honra, charanga (músicos que tocavam atabaques, agogôs, xequerês e afoxês).

A assinalar diferenças estão as indumentárias (abadás), cores (vinculadas aos respectivos orixás), cantigas em iorubá, além dos instrumentos de percussão. O ritmo e a dança na rua reproduzem a dos terreiros, bem como a melodia entoada. As músicas, agora selecionadas em concorridos festivais, são puxadas pelo cantor do grupo e repetidas por todos, inclusive os instrumentistas.

Os componentes, normalmente vinculados aos terreiros de candomblé, têm consciência de grupo, valores e hábitos que os distinguem de qualquer outra entidade no Carnaval. Para quem não conhece o candomblé e seus cânticos, a sensação é de que seja apenas um bloco carnavalesco diferente, mas trata-se de uma expressão simbólica a reverenciar ancestralidades pelas ruas. Segundo pesquisa e publicação patrocinada pelo IPAC – Desfile de Afoxés – em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura para desfilar, o que lhes fora negado gerando intenso debate na imprensa. Em 1906, foram publicadas medidas para regulamentar o Carnaval no jornal “A Bahia” e, entre estas, uma proibição à “exhibição de clubs de costumes africanos, candomblés”.

Filhos de Gandhy – o mais famoso e com maior contingente, fundado em 1949 – expressa uma raiz indiana (asiática), não propriamente africana como os demais, sob o lema da paz professada pelo Mahatma Gandhi, também é originário de estivadores. Seus primeiros “lençóis brancos” teriam sido oferecidos por prostitutas do cais. Os dirigentes do afoxé têm sido alvos de críticas por não participarem de atividades em defesa de interesses da raça negra, e por não promover atividades culturais ou educativas, como assegura Ednaldo Sanana, presidente da Associação Baiana e da Federação Brasileira dessas agremiações.

Mantenedores de verdadeiros pontos de cultura, os afoxés aliam integração comunitária à educação e possibilitam aulas de dança e música, elementos constitutivos da cultura negra, considerando, ainda, a íntima relação entre corpo e ritmo como fator estruturante para diversos níveis de sociabilidade. E, assim, desejar que os anunciadores do futuro nos toquem cada vez mais próximo.

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Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

Rodin na Bahia

https://albenisio.files.wordpress.com/2009/10/rodin-mulher.jpg?w=200https://i0.wp.com/sabercultural.com/template/escultores/fotos/AugusteRodinFoto01.jpg

https://i0.wp.com/www.andaluxia.com/malaga/rodin/fotos/rodin_21-10-2007-09.JPG
“Os burgueses de Calais” em http://www.dezpropaganda.com.br/blog/?p=125

Para ver Rodin,

além do modelado

Albenísio Fonseca

Em um país, no qual apenas 13% vão ao cinema uma vez por ano; só 17% compram livros; 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança; mais de 75% dos municípios não têm centros culturais, museus, teatros, cinemas ou espaço cultural multiuso, e 92% nunca visitaram um museu, soa como uma dádiva a abertura e permanência por três anos da exposição “Auguste Rodin, homem e gênio”. Com 62 esculturas em gesso, do artista, no Palacete das Artes Museu Rodin Bahia, é, sem dúvida, uma das atividades mais esperadas da programação do Ano da França no Brasil.

Independente do fabuloso legado e influência da sua escultura para gerações de escultores, em todo o mundo, vamos poder constatar o fenômeno da atualidade de seu trabalho no processo mesmo da recepção estética. Tema universal da escultura, o corpo humano é o alvo de seu trabalho e foco maior de seu interesse. Nessa corporeidade, enquanto réplica do ser, suas esculturas evocam, a um só tempo, a magia e o simulacro.

Como nenhum artista, em todo o decurso histórico, François-Auguste-René Rodin (1840 -1917) faz sua obra transitar de um renovado sentido de naturalismo – sem jamais perder seu caráter totêmico e mágico – para a condição de simulacro da vida fremente de valores primitivos e universais interligados. Um simulacro da corporeidade humana em diálogo com um outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima no seu espaço circundante.

O tema do corpo humano, sua materialização em qualquer momento e circunstância da história, gera um elo simbólico entre o artista e a matéria, entre criador e criatura, aí incluso o receptor da obra. Rodin antecipa as proposições dos surrealistas nos anos 30, ao estabelecer uma ponte entre a corporeidade de suas esculturas e o corpo real e vivo do espectador que se lhe acerca – estabelecendo um diálogo de corpos.

A escultura é a ciência do modelado. Mas, diferentemente da escultura  acadêmica de seu tempo, feita para ser vista de um só ponto frontal e de baixo para cima, na escultura de Rodin todos os ângulos são importantes.

Como diríamos de uma área de impacto, de trocas sensíveis entre o espectador e a obra, um campo de força, energético, vai exigir uma “leitura” ativa, andar em volta ou em movimento pendular de aproximar-se ou afastar-se. Se preferir, ainda, em diagonais, avistando das laterais os perfis possíveis das massas modeladas.

Marcada pelo naturalismo, segundo uma “poética das massas”, a humanidade na estatuária de Rodin, apresenta-se modelada em dinâmicas representações de energia física, biológica e emocional. Pesquisador do corpo humano e suas possibilidades vitais, ele desenvolveu um método experimental de análise e de captação das posturas e aparências das superfícies dos corpos masculinos e femininos. Estes com franca exposições dos órgãos sexuais a reforçar sua feminilidade.

De forma singular, segundo a ensaísta Daisy V. M. Peccinini de Alvarado, Rodin mantinha em seu ateliê modelos despidos. “Homens e mulheres, ora em repouso, ora em movimento, com a finalidade de fornecer-lhe imagens da nudez do corpo humano, nas posturas mais comuns da vida cotidiana ou mais complexas, sob condições de acontecimentos extraordinários. E de um modo que nos permitisse ler a expressão do pensar e do sentir em todas as partes do corpo: músculos, rugas, posturas, tensões e relaxamentos, a revelar pensamentos e sentimentos”.

Rodin parecia acreditar que cada situação criada na tridimensionalidade de uma escultura corresponde a um tipo de emoção ou sensação, articulando verdadeira fisiologia das paixões humanas, em revolucionária linguagem escultórica.

E que em lugar de permanecermos como periféricos da cultura (e do pensamento), tenha essa exposição de Rodin, para umpúblico multivariado, a possibilidade de tornar mais inteligente a nossa retina, frente à Medusa excludente que insiste em nos petrificar o olhar.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

O axé sob contingência

foto

O axé sob contingência

Albenísio Fonseca

A força avassaladora e contagiante da axé music, com seu modelo “made in Bahia for export”  tem sofrido restrições em territórios carnavalescos país afora. Embora seus artistas e produtores sejam promotores de carnavais fora de época, em eventos como o CarNatal e Recifolia, entre outros, quando reina absoluto, o ritmo “axé” foi proibido, diria mesmo censurado, nos carnavais de Recife, Olinda e nas cidades históricas de Minas. Em Ouro Preto , Mariana e São João Del Rey a música baiana só pode ser tocada em ambientes fechados, fora do circuito oficial da festa, e sob cobrança de ingressos.

Em Olinda, por decretos do Executivo, ficaram proibidos o beijo na boca, sob a alegação de que estariam ocorrendo “arrastões de assédio” – legislação burlada, principalmente nos redutos gays da cidade em festa; e a circulação de táxis, restrita apenas à frota local. No Recife Antigo, a interdição à axé music nos fez contemplar tradicionais manifestações pernambucanas. Dorival Caymmi, se vivo estivesse, poderia reencontrar, sob a chuva intensa, sua “Dora, rainha do frevo e do maracatu”.

Em Salvador cada vez mais ficam menos tênues os limites da geografia do sagrado e do profano no ciclo de festas, vide a revitalização proporcionada por Gerônimo nas escadarias do Passo. Uma intervenção anterior ao seu reinado de Momo. Em Pernambuco, numa rota inversa à roda viva da dinâmica cultural – e mesmo cabendo a Caetano Veloso proceder à abertura da pernambucália folia esse ano – o impedimento a que o ritmo baiano passasse a “cantar de galo” compõe, muito mais que uma reserva de mercado, a legítima preservação do que há de mais genuíno nas expressões populares do estado vizinho.

Por aqui, temos a festejar o tombamento do Carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia e o investimento do estado nos carnavais de Palmeiras e Rio de Contas, que têm manifestações culturais tradicionais e peculiares. Festejar, também, o toque de Midas de Carlinhos Brown, extensivo à sua magnífica presença na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, com seus tambores campeões do Carnaval carioca, e sua quase-marcha “Vai chamar Dalila”, na voz de Ivete Sangalo, mais tocada do período momesco (e que já virou gíria no submundo), em concorrida disputa com o mega axé “Beijar na boca”, da Cláudia Leite, que irritaria o prefeito de Olinda.

Se me coube um dia, em meados dos anos 80, ostentar o então pejorativo “axé music”, em caráter positivo, como título de reportagem,  para a nova onda musical baiana, e sou dos que integram o cordão do “É probido proibir”, tenho que admitir a importância da política cultural pernambucana, acenando para o coração do pierrô Alceu Valença a cantar nossa pluralidade cultural da sacada do casarão onde mora em Olinda.

No mais, lamentar ter perdido o engarrafamento de garçons, bandejas de whisky à mão cheia, no farto (Fausto) dispêndio do openbar oferecido no camarote do governo baiano. Contingenciamento à parte, é claro. Axé!

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor