Invasão holandesa completa 393 anos

                                                                                                                                                                                                        Fotos: ReproduçõesPintura de Hassel Gerritsz sobre a invasão a Salvador em 1624

 

Albenísio Fonseca

Salvador, 9 de maio de 1624. A cidade amanhece sob o domínio e os efeitos do bombardeio de uma esquadra holandesa composta por 26 navios, sob o comando de Jacob Willekens. Na véspera, mesmo sob fogo cruzado do Forte de Santo Antônio, eles conseguem alvejar os canhões da Ponta do Padrão e desembarcam no Porto da Barra. Grupamentos de vanguarda seguem pela Ladeira da Barra e despenhadeiros até alcançarem a Porta de São Bento. Passam a madrugada no Mosteiro “ao sabor de vinhos e confeitos” que encontram no local. Ali, esperam o dia amanhecer e tomam o centro da cidade.
Conforme Ricardo Behrens, no livro ‘Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625’, “relatos portugueses e holandeses contam que o confronto teve início no dia anterior quando os da cidade receberam com disparos um batel com bandeira de paz enviado pela frota, antes mesmo de ouvirem a embaixada. Em resposta, os invasores descarregaram seus canhões no costado da cidade, nos fortes e nos navios que estavam no porto”. A visão da armada, por si só, provoca pânico e correria na maioria dos habitantes. Por mais que soubessem da probabilidade dos ataques, a cidade não dispunha de nenhuma estratégia especial. D’El Rey não estabelecera nenhum recurso para armamentos. 
Já os holandeses – cuja armada partiu do porto de Texel em dezembro e a viagem durara, portanto, quase seis meses – estavam imbuídos do propósito de invadir a capital do Reino do Brasil e com bastante munição. Os arrasadores disparos de canhões e, depois, o vandalismo dos invasores, acarretam inúmeros prejuízos à cidade, inclusive ao prédio da Câmara onde estava instalado o Arquivo Histórico, cujos documentos são completamente destruídos pelo fogo.
De acordo com o historiador Affonso Rui, no livro ‘História política e administrativa da cidade de Salvador’ “os oficiais encarregados da documentação, como boa parte da população, fogem para Abrantes”, relata. Os 3.400 homens, entre aventureiros e mercenários que compunham a esquadra invasora, não encontram maiores resistências para render o governador-geral da colônia, D. Diogo Mendonça Furtado, e aprisioná-lo na chamada Casa dos Governadores (no que viria a ser o Palácio Rio Branco, na atual Praça Tomé de Souza), em pleno coração da urbe, uma das mais importantes cidades da América, então capital do Brasil.
O governante português houvera se mostrado preocupado com o despreparo bélico do Brasil e chegou a entrar em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade e Mendonça Furtado assina sua rendição um dia depois. É levado prisioneiro para Amsterdan, com outras 12 pessoas, entre auxiliares e jesuítas, de onde somente são libertados em 1626. Segundo Behrens em sua dissertação de Mestrado já convertida em livro, “há uma série de conferências publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 66, de 1940. Trata-se de uma publicação em comemoração à derrota de Maurício de Nassau ao tentar invadir a Bahia em 1638. Além das conferências, foram publicadas as sugestões feitas pelos membros do Instituto para comemorar a data, dentre as quais se destaca a ideia de confecção de uma série de placas comemorativas, a exemplo da que existe ainda na entrada do Mosteiro de São Bento”. 
A permanência dos holandeses em terras baianas duraria praticamente um ano. Cabe ao bispo Dom Marcos Teixeira, posteriormente denominado Bispo Guerreiro, promover a resistência. Através da tática de emboscadas impede os invasores de sair da cidade. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa-espanhola, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chega a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, obtêm a primeira rendição.
Colônia era controlado pelos espanhóis durante a União Ibérica
A colônia era controlada, então, por espanhóis, durante a denominada União Ibérica (1580-1640) que junta as duas coroas após o desaparecimento de Dom Sebastião de Avis, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, na guerra contra os mouros, em 1578, quando ambicionava a vitória sobre os muçulmanos para a glória do cristianismo. Vale entender mais: A “morte” de Dom Sebastião provoca uma crise sucessória em Portugal, tendo em vista que o rei não deixara herdeiros. Seu desaparecimento gera o “sebastianismo”, espécie de crença messiânica que estipulava seu retorno ao reino e que se estenderia por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
A solução encontrada para o trono é seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (Henrique I, de Portugal), que, já bastante idoso, falece em 1580, marcando o fim da dinastia de Avis. Com isso, o trono português passa a ser disputado por outras dinastias europeias, que reivindicavam ligação de parentesco com Dom Sebastião. O então rei da Espanha, Felipe II, um dos mais poderosos monarcas da época, era neto de Dom Manuel, O Venturoso, que, por sua vez, era tio de Dom Sebastião. Essa ligação parental é reivindicada por Felipe II e usada como legitimação para a invasão de Portugal pelos espanhóis em 1580, instaurando a monarquia dualista: duas coroas sob um mesmo monarca. Portugal só readquire a independência 60 anos depois quando tem início o reinado de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança. 
É no período da União Ibérica que ocorre também as invasões francesas. Holanda e França, que antes mantinham relação amistosa com Portugal, confrontam-se diretamente com a Espanha. A supremacia ibérica passa a ser questionada por aquelas nações europeias que desejavam também lucrar com o processo de colonização. E isso envolvia tanto razões de caráter econômico, no que pese o controle do comércio de açúcar e da extração de metais, quanto de ordem religiosa, na medida em que a Espanha era católica enquanto a Holanda e parte dos franceses haviam aderido ao protestantismo. O período conhecido como “Brasil Holandês”, em que vigorou uma sofisticada administração holandesa em parte da costa nordeste brasileira, ocorre exatamente nesse contexto. Não há registros de legados holandeses na Bahia, ao contrário dos verificados em Pernambuco, como os franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão.
Hessel GerritszDesenho de Hassel Gerritsz sobre a Baía de Todos os Santos durante a invasão holandesa

Primeira tentativa de invasão acontece em 1599

Outras tentativas de invasão dos holandeses já haviam sido registradas na Bahia, mas não foram bem sucedidas. Na impossibilidade de dominar a capital do Brasil, eles conseguiram se estabelecer em Pernambuco e estendem seus domínios por grande parte do Nordeste até serem expulsos, definitivamente, da Colônia, em 1654. A primeira tentativa holandesa de conquistar Salvador ocorre em dezembro de 1599, quando o almirante van Leynssen envia sete navios ao Brasil, comandados pelos capitães Hartman e Broer. Os ataques na Baía de Todos os Santos duraram quase dois meses. Os holandeses afundam várias embarcações portuguesas e pilham engenhos no Recôncavo. Mas fracassam no objetivo de conquistar a Cidade.
Nos anos seguintes, piratas holandeses continuam atacando navios espanhóis e portugueses nos oceanos Atlântico e Índico. Em 1604, tentam novamente conquistar Salvador, dessa vez com uma esquadra de seis navios comandada por Paulus van Caerden. O ataque, similar ao primeiro, tem como resultado o mesmo fracasso. Nos anos seguintes, dezenas de navios com cargas do Brasil, são atacados pelos holandeses. Em 1621, eles fundam a Companhia das Índias Ocidentais, empresa patrocinada pelo governo holandês com participação de investidores privados e que visava, principalmente, a exploração comercial da América. No século 16, Portugal mantinha boas relações comerciais com os holandeses, mas esse quadro muda com o advento da União Ibérica em 1580.
Um ano antes, em 1579, as províncias do norte dos Países Baixos haviam formado a União de Utrecht, documento assinado por diversos estados dos Países Baixos que se debatiam para obter a independência da Espanha. Em 1581, declaram formalmente sua independência. A Espanha, entretanto, só a reconheceria em 1648, 24 anos depois de a Companhia das Índias Ocidentais decidir por invadir Salvador sob a alegação de sentir-se prejudicada em seus negócios no Atlântico pelo domínio espanhol sobre Portugal.

A expulsão dos invasores no contexto internacional

Fevereiro de 1630. Navios e canhões holandeses entram de novo em águas brasileiras. Dessa vez invadem Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar na época. Desembarcam no litoral pernambucano e conquistam Olinda e Recife com relativa facilidade. O então governador Matias de Albuquerque retira-se para o interior com homens e armas e funda o Arraial do Bom Jesus, uma fortificação de onde partiam os ataques aos invasores.
Como na invasão da Bahia, os lusos-brasileiros adotam a guerra de emboscadas na tentativa de impedir os holandeses de penetrar nas terras onde estava a maioria dos engenhos. A resistência, no entanto, não contém o avanço holandês, que chega a receber apoio de moradores da região, como é o caso de Antônio Fernandes Calabar. A colaboração, muito mais que traição, visava livrar-se do domínio português. Derrotado, Matias Albuquerque manda incendiar os canaviais à sua volta e retira-se para Alagoas. Antes, porém, consegue prender Calabar e manda executá-lo.
Sete anos depois, em 1637, a Companhia das Índias Ocidentais decide reconstruir os engenhos com o objetivo de voltar a obter lucro com o açúcar brasileiro. Para liderar esse projeto, envia ao Brasil o conde João Maurício de Nassau-Siegen, com o título de governador-geral. A acumulação de riquezas da Companhia das Índias Ocidentais reflete-se na administração e na reconstrução de Recife, a capital do Brasil holandês. Nassau teve a habilidade de convidar alguns senhores de engenho para participar da administração.  Não lhes oferece cargos importantes, mas não ignora suas reivindicações. Mantém uma tolerância religiosa, sem obrigar os colonos luso-brasileiros a converterem-se ao protestantismo dos holandeses.
No afã compreender melhor o Brasil, Maurício de Nassau manda vir da Holanda 46 estudiosos, pintores e cientistas para estudar e registrar as características da terra,  dada a curiosidade despertada pela rica fauna e pelas belezas naturais da região. Os holandeses foram pioneiros nesse tipo de estudo sobre o Brasil. Os pintores Frans Post e Albert Eckhout deixam belíssimas pinturas da colônia holandesa nordestina. Os cientistas estudaram doenças tropicais e sua possível cura. O primeiro observatório astronômico das Américas foi construído em Recife. Maurício de Nassau tentou ainda dar maior autonomia econômica à colônia para não depender em demasia do mercado externo.
Em 1640, Portugal consegue independência da Espanha. Em agosto de 1645, os colonos luso-brasileiros conseguem importante vitória no Monte das Tabocas. O governo da Bahia envia auxílio e Recife é sitiada. A vitória, todavia, não conseguiu desalojar os holandeses, muito bem guarnecidos por mar. As lutas prosseguem por três anos. No final de 1648, os holandeses sofrem grande derrota na Batalha dos Guararapes. Ainda assim, Recife continua em poder da Companhia das Índias Ocidentais.
A situação internacional, contudo, ajuda a acabar com o impasse no conflito entre holandeses e colonos no Brasil. A Inglaterra declara guerra à Holanda, na disputa pela hegemonia dos mares. Os ingleses chegam a auxiliar os rebeldes anti-holandeses no Brasil. Os governantes portugueses aproveitam o enfraquecimento dos invasores e enviam um grande reforço para os colonos no Brasil, em fins de 1653. Finalmente, em janeiro de 1654, os holandeses se rendem. Terminava ali o período de domínio holandês no Brasil. Mas somente em 1661 o governo holandês reconhece que não tinha mais direitos sobre o Brasil.

Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

5 de outubro – Canudos não se rende

Históricas fotos de Augusto Flávio de Barros

Misticismo, traição e morte:

A queda de Canudos

Albenísio Fonseca

O dia 5 de outubro data a queda do arraial de Canudos, no sertão da Bahia, sobre a qual Euclides da Cunha escreveria a tragédia inaugural da República brasileira e Cesar Zama desnudaria os fatores envolvidos para dizimar o povoado, erguido na fazenda abandonada de Garcia D’Ávila.

Se considerarmos as permanentes tentativas retrógadas frente ao duro avanço social no país, é correto afirmar o quanto a primeira crise da República está de volta. Canudos não se rende. O dramático extermínio da experiência pioneira de uma comunidade popular, sob o comando do beato Antônio Conselheiro, após rechaçar os ataques de três expedições do Exército, entre 1896 e 1897, levada a efeito pelo novo regime implantado no País, permanece irresolúvel na consciência dos brasileiros.

Com o relato de Euclydes da Cunha, ao narrar parte de toda a epopeia em Os Sertões, sendo contestado em inúmeros aspectos por diversos autores, é inevitável compreender o quanto, antes, o Brasil era Canudos. Hoje, Canudos é o Brasil. O território, palco daquela aventura mística e bélica, permanece vivo na contemporaneidade, ainda que submerso para dar lugar ao açude de Cocorobó, em 1966.

Quem quiser interpretar, à luz da história, a guerra travada em quatro intermitentes batalhas entre os seguidores do beato Antônio Conselheiro e os cinco mil soldados do Exército, precisará trazer à memória o mais sangrento dos conflitos já ocorridos no Brasil. Um episódio cujo paralelo histórico pode ser estabelecido na destruição de Cartago pelos romanos.

Há quem considere o desfecho das Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.) o maior caso de genocídio da Antiguidade. Se, em outros momentos, os romanos combinavam força militar e diplomacia, neste caso não tiveram qualquer clemência. A ordem, seguida na expressão latina “delenda est Carthago” (“Cartago deve ser destruída”) foi executada com tamanho rigor que as casas foram demolidas, grande parte da população foi morta, os sobreviventes transformados em escravos e, sobre o solo, depositado sal para que nada germinasse. Tamanho foi o estrago em Cartago que não sobraram muitos registros sobre sua civilização, convertendo-se em enorme desafio para historiadores e arqueólogos desvendarem, minimamente, o modo de vida que havia ali.

No caso de Canudos, ou Belo Monte, contudo, conforme o escritor César Zama, baiano de Caetité, no artigo publicado no Diário da Bahia, em 1899, “a justiça estadual não se ocupava dos habitantes daquele arraial. Contra eles não havia instaurado processo algum. Nos cartórios do Estado nenhum deles tinha o seu nome no rol dos culpados. Nada de extraordinário se passava com relação a Antonio Conselheiro e aqueles que o acompanhavam”.

Ao denunciar o genocídio, Zama faz ver o quanto “ninguém ignora que gênero de vida levavam os canudenses: plantavam, colhiam, criavam, edificavam e rezavam. Rudes, ignorantes, fanáticos talvez pelo seu chefe, que reputavam santo, não se preocupavam absolutamente com a política. Antonio Conselheiro, porém, confessava-se monarquista. Era seu direito, direito sagrado, que ninguém podia contestar em um regime republicano democrático. Não há ato algum por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir que ele tentasse contra o governo da República”.

As desobediências civis à cobrança de impostos e ao casamento civil instituído pela Constituição de 1891 faziam parte da sua pregação, iniciada por volta de 1870 ao promover mutirões para a construção de igrejas e cemitérios no interior do Nordeste. O atraso na entrega de madeira, adquirida em Juazeiro, para a construção do telhado de um templo no arraial, 26 anos depois, se converteria em revolta e no estopim para a mancha sangrenta que se incrustaria na história republicana.

As autoridades de Juazeiro se recusaram a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a igreja de Canudos; os “jagunços”, então, decidem tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de “banditismo”.

A primeira expedição contou com 100 homens, comandados pelo tenente Pires Peneira. Foram surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

A segunda expedição dispôs de 500 homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças. São emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos.

Entre os líderes da resistência destacam-se João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides da Cunha um gênio militar. Reduzidas a 100 homens, as tropas do governo decidem retornar.

A terceira expedição teve 1.300 homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp, importados da Alemanha, mas sem estratégia definida. Chegaram em fevereiro de 1897 e optaram por atacar o arraial de Canudos de frente, a partir do Morro da Favela. Protegidos pela irregularidade do relevo, os jagunços empreenderam a luta no corpo-a-corpo e desorganizaram as tropas, que na retirada desastrosa deixaram para trás armas, munições, os canhões Krupp e o próprio general Moreira César, morto após ter sido ferido em combate. Moribundo, cravou a máxima: “É tempo de murici, cada um que cuide de si”.

A quarta expedição, planejada no Rio de Janeiro, então capital federal, mobiliza cinco mil homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget. Contavam, ainda, com tropas da Bahia e da Paraíba. São divididos em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da Favela e tem de se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, mudara de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões.

Após três meses de cerco, as duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados, aos farrapos, sem distintivos, mal resistiam à fome e à sede. Em agosto de 1897, oito mil homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio ministro da Guerra, o marechal Carlos Bittencourt. O presidente da República era Prudente de Morais (1894-1898), primeiro civil a ocupar o cargo.

São cortadas as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido com a tomada da aguada a que tinha sido reduzido o rio Vaza-Barris. Um tiro de canhão atinge a torre da Igreja. Firmes, confiantes na salvação eterna, os sertanejos não se rendem. A maioria seria degolada após o assalto final. Perpetrava-se ali, dessa forma, o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que não conseguiu acompanhar o embate final, do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, mais tarde refundidas em Os Sertões.

Em meio ao disparate da mobilização das forças expedicionárias para combater a crença e a fé de uma comunidade que compunha a segunda maior concentração populacional da Bahia, após a capital, com cerca de 25 mil habitantes, vale, ainda, registrar o episódio da rendição de milhares desses habitantes durante o enfrentamento à quarta expedição. A iniciativa foi do braço direito de Conselheiro, o Beatinho.

Ergueu bandeira branca e dirigiu-se à negociação. Chegado à presença do general Arthur Oscar expôs-lhe o propósito: “venho declarar-vos que grande número de meus companheiros estão dispostos a render-se, contanto que V. Exa. lhes garanta a vida” foram a suma de suas palavras.

“Sob minha palavra de honra prometo que as suas vidas serão respeitadas: podem vir tranquilos”. Responde-lhe o chefe das forças legais. Mas o que ocorreria com a rendição, senão a degola de todos, idosos, mulheres, crianças, para consagrar um heroísmo desmerecido? Sim, Canudos permanece vivo.

Festa de Itapuã 2014

Foto: Albenísio Fonseca/2013
Cortejo das baianas no trajeto de Placafor até à Igreja em Itapuã

Todos os caminhos levam

à Festa de Itapuã 

Todos os caminhos levam à Itapuã nesta quinta-feira (20.02), onde acontece a 109ª edição da Festa do bairro. A expectativa, em ano de eleição, é que o evento reúna grande parte de candidatos à Assembleia Legislativa, Câmara Federal, Senado e mesmo ao Executivo estadual, antecipando o calendário eleitoral.
A festa, cujo ápice é a lavagem do adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, tem início previsto para às 11h30, quando dezenas de baianas, animadas pelo ritmo de alabês e percussionistas do afoxé Korin Nagô, seguidas por carro alegórico com os homenageados do bairro, centenas de foliões e turistas, se deslocam em cortejo, desde Placafor até Itapuã, aliando fé e ludicidade.
O desfile prossegue, por quase toda a tarde, com dezenas de grupos de samba, o bloco afro Malê Debale, que este ano comemora 35 anos de fundação e outras manifestações típicas do lugar, em contagiante animação a mobilizar uma multidão por todo esse trecho da Orla da cidade. A festa de Itapuã é a última do calendário de eventos populares de Salvador antes do Carnaval.
A animação local, contudo, começa nas primeiras horas da madrugada. Sob organização da professora Ronilda dos Santos, o Bando Anunciador – uma banda de sopro e percussão –  percorre  ruas do bairro com cerca de 500 foliões, convocando a comunidade para a festividade. Uma alvorada de fogos marca a abertura das comemorações e, sob o nascer do Sol, acontece a “lavagem nativa” do adro da igreja de N.Sra. da Conceição de Itapuã, organizada pelos filhos de D. Niçu (que promoveu a iniciativa há 25 anos), seguida de um concorrido samba de roda e de “café da manhã africano”, oferecido em congraçamento comunitário.
Após a tradicional lavagem, à tarde, há uma recepção de confraternização aos participantes, com uma feijoada para as baianas e convidados, demonstrando a “magnitude e relevância da festa”. Na segunda-feira (24), às 16h, na Enseadinha (Praia da Sereia), a festividade é encerrada, há 28 anos, com “o mais belo dos presentes à Iemanjá”, organizado por canoeiros e pela mãe pequena Gildete dos Santos.
Toda a estrutura para a realização do evento já está instalada e conta com equipamentos e efetivos da PM, Corpo de Bombeiros, Policia Civil, Transalvador e postos para atendimento de emergência, além das barracas de bebidas e comércio ambulante, no trecho entre a Sereia e a praça Dorival Caymmi. O transito, conforme acordado com a Transalvador junto os organizadores, será interditado para o acesso ao bairro, pela Orla, já na quarta-feira, à noite, com desvio para a avenida Paralela pela avenida Pinto de Aguiar. O transito volta à normalidade a partir das 16h de quinta-feira.
A Festa de Itapuã é organizada e executada pela própria comunidade com apoio da Prefeitura, através da Saltur.  A festividade proporciona, além de prazer, alegria e manutenção de uma tradição centenária, importante legado para a melhoria das condições de vida dos moradores e frequentadores do bairro, na medida em que mobiliza a gestão municipal a viabilizar operações de pavimentação, mais iluminação de ruas e coleta de lixo e entulhos, principalmente na áreas de trajeto dos cortejos e seus entornos.
Além do cantor e compositor Dorival Caymmi, cujo centenário de nascimento transcorre esse ano, a Festa homenageia o principal carnavalesco do bairro, Gilberto Menezes de Almeida (“seo” Menezes), 82 anos, e a ialorixá bantu, Zulmira de Santana França, 79 anos, que desfilarão em carro alegórico no formato de um saveiro.

Religião na TV

Religião na TV ou,
o sacrifício dos cordeiros

Albenísio Fonseca

Não é só de replicação da barbárie cotidiana que vive a TV aberta no Brasil. Outro “fenômeno” que se evidencia abusivo é a ocupação dos horários, de modo intermitente, por programas religiosos, no que se tem convencionado designar por igrejas eletrônicas, notadamente as do viés evangélico, sejam a Universal, Mundial, Renascer ou da Graça de Deus.

“Em nome de Jesus”, tanto na TV quanto no rádio, país afora, o proselitismo de pastores visa acima de tudo conquistar novos adeptos. Contudo, o que se expande não são apenas os programas religiosos, exibidos nas emissoras comerciais em horários vendidos às igrejas e organizações religiosas pela considerável cifra dos R$ 500 mil a R$ 1 milhão mensais, mas, sobretudo, o número de emissoras religiosas: Rede Vida, Rede Canção Nova, Rede Família, Rede Boas Novas, Rede Gospel, Rede Super, etc, etc… Algo superior a 15 redes, com emissoras espalhadas por todo o pais, sob cobertura nacional via satélite. Sim, e em que pese as 142 possibilidades de enquadramento religioso previstas pelo censo.

Outro dado significativo é o de que, “coincidentemente”, a predominância desses tipos de programações – a que explora a violência e a que ilude sob o manto da fé religiosa – ocorrerem em emissoras vinculadas a estas igrejas, notadamente a Record – uma broadcasting da Igreja Universal do Reino de Deus.

Na conclusão a uma pesquisa feita em 114 nações e divulgada em 2010, o Instituto Gallup mostra a correlação entre o grau de religiosidade da população e a renda per capita: “Quanto mais religiosos são os habitantes de um país, mais pobre ele tende a ser”. Na contraface da pesquisa do Gallup, a sociologia sempre apostou na tese de que a pobreza é que facilita a expansão da religião.

Segundo o monitoramento da programação das redes de TV aberta da ANCINE, a religião foi o principal gênero de programação na TV aberta brasileira em 2012 –  chegando a 13,55% da programação, a frente dos gêneros variedades (10,45%), telejornais (10,43%), musical (8,48%) e o telecompras (7,51%). Em alguns casos, o problema é mais grave, como na Bandeirantes (17%), CNT (37%), Record (23%), Rede TV (38%) e Gazeta (15%).

Conforme o noticiário, desde o último sábado (9/11), a Rede 21 inseriu na programação os programas produzidos pela IURD TV, produtora da Igreja Universal do Reino de Deus, substituindo a WS Music, da Igreja Mundial do Poder de Deus. A substituição aconteceu também no espaço que o grupo possuía nas madrugadas da Band. As mudanças são mais um capítulo da briga entre o bispo Edir Macedo e o apóstolo Valdemiro Santiago por espaço na mídia brasileira.

Mundial e Universal disputavam nos últimos meses o contrato com o grupo Bandeirantes e, no fim das contas, o apóstolo Valdemiro Santiago foi desbancado pelo bispo Edir Macedo. Especula-se que o despejado tenha uma dívida de R$ 21 milhões e a inadimplência teria gerado o rompimento do contrato. O líder religioso despejado estaria pedindo R$ 200 milhões em indenização. Negocia-se também um retorno à grade em janeiro, quando as duas igrejas passariam a dividir o espaço da programação.

Antes do rompimento, a Igreja Mundial controlava 21 horas diárias de programação na Rede 21, e as madrugadas (3h-6h) da Band. Estas últimas, negociadas em 2011 em uma jogada que retirou o pastor Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo) da emissora paulista. As noites da emissora são divididas também com a Igreja Internacional da Graça de Deus (do pastor R.R. Soares).

Projeto de Lei de Mídia Democrática, defendido pelo Movimento de Democratização da Comunicação, prevê a proibição de arrendamentos de horários em concessões públicas de TV, veda a outorga a instituições religiosas e limita o tempo de veiculação de conteúdos religiosos.

 A denominada Igreja Eletrônica expandiu-se no Brasil a partir da década de 80. Seu formato, desde sempre, preconiza a trilogia “reza, cura e salvação”. A salvação é oferecida, como diríamos de uma mercadoria, em púlpitos de templos miraculosos e na vitrine desses programas (já não mais em outro mundo).

Porém, via de regra, e até ungindo celulares, o que os pastores pretendem e têm conseguido, são as contribuições financeiras dos seus rebanhos de incautos, mas fiéis ouvintes e telespectadores – esses mesmos, os cordeiros em sacrifício.