Bem vindo à Era da Telemática total

The Jetsons, de 1963, já previa a comunicação por videofone. O que mudou?

Bem vindo à
Era da Telemática!

Albenísio Fonseca

No mundo hiperconectado em que passamos a habitar nos últimos 15 anos, uma nova revolução de aplicativos para celulares já teve início. Refiro-me às videochamadas. Inauguradas pelo Skype, com o sistema Voip (voz sobre Internet Protocolo), em 2001, para computadores fixos (desktops), laptops e, portanto, para webcam, foram recentemente estendidas para os celulares. O certo é que a comunicação instantânea por áudio e vídeo está se tornando acessível e disseminada em escala massiva.

Seja através do próprio Skype ou em redes sociais como as proporcionadas por aplicativos como o Whatsapp (que anunciou o lançamento do recurso para este mês), Viber (disponível desde 2014) e mesmo o Facebook (já adotada em alguns países e prevista para alguns meses no Brasil). Há, ainda, entre outros, o Imo e o Tango. A comunicação por videofone, contudo, extrapola a noção de mera visualização dos interlocutores para converter-se em uma extraordinária telemídia.

O termo “vídeo” aplicado nesse caso, diferentemente da concepção em voga, de uma gravação reproduzível de imagens, consiste, agora, no uso das câmeras embutidas nos celulares com transmissão em tempo real. Com isso, diferentemente do modelo vislumbrado na ficção The Jetsons (dos anos 60), sobre habitantes de um futurível ano 2.000, as videochamadas ampliam o diálogo e os acenos face to face para converter-se em tomadas dos ambientes.

De imediato e no âmbito do jornalismo televisivo, é possível perceber o quanto o trabalho dos cameramen está ameaçado. Pode-se ilustrar, ainda, com cirurgiões a conduzir procedimentos à distância.

O advento da videochamada, nesse sentido, redimensiona o contato telefônico com as imagens dos interlocutores para dotá-los da capacidade de apresentar todo o espaço circundante. Um celular, bem entendido, uma câmera na mão, e o mundo real (o ambiente circundante) estará disponível ao olhar perscrutador do outro.

No princípio, em 1973, era o verbo. Em 1988, os dados. Em 4G, logo teremos câmeras cada vez mais potentes e já considerados os videochats em grupos ou adequadas às transmissões por emissoras de TV e pela Internet.

A evolução tecnológica, notadamente o crescimento exponencial da capacidade de processamento dos circuitos integrados e o aumento da disponibilidade de banda propiciado pelas modernas redes de telecomunicações, têm sido os catalisadores do enriquecimento da comunicação eletrônica, num esforço de torná-la cada vez mais semelhante à interação pessoal.

O melhor exemplo desse enriquecimento é a crescente presença do vídeo nos meios de comunicação pessoais: sejam videoconferências em celulares, através dos messengers, como recursos cada vez mais comuns de comunicação. Nesse ambiente, as corporações se tornarão ainda mais atuantes, com visibilidade e mobilidade em full time.

Tornados cada vez mais plurais em sua singularidade, aplicativos com videochamada possibilitarão enorme gama de usos. Logo, as corporações e qualquer usuário, se apropriarão, em modos inusitados, das aplicações multimídia. Com as mídias de comunicação instaurando, de uma vez por todas, a nova fase da tecnologia da imagem, vale saudá-lo, mero portador de um dispositivo móvel, com um bem vindo à Era da Telemática total.

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Albenísio Fonseca é jornalista

 

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Apagão analógico

 

ERA DIGITAL

“Apagão analógico”

começa em novembro de 2015

 Albenísio Fonseca

Após países como Estados Unidos, alguns da Europa e o Japão, o Brasil inicia em 2015 o “apagão das transmissões para televisores analógicos”. O desligamento inicial, conforme cronograma do Ministério das Comunicações – MiniCom e da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, prevê a realização de projeto piloto na cidade de Rio Verde, interior de Goiás, em 29 de novembro do próximo ano.

A migração total para o sinal digital tem à frente um horizonte que se estende até 2018. A segunda cidade a contemplar o fim do sinal analógico, em 2016, é Brasília, dia 3 de abril.

Em São Paulo, maior praça do País, o sinal digital passa a predominar a partir de 15 de maio. Dia 26 de junho, Belo Horizonte. Em 28 de agosto, Goiânia e, a 27 de novembro, o Rio de Janeiro.

O switch off (desligamento, em inglês) está previsto para 25 de junho em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Em 30 de julho, também de 2017, o “apagão” acontece em Salvador e cidades da Bahia como Camaçari, Dias d’Ávila, Itaparica, Jaguaripe, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Salinas da Margarida, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz. Na mesma data, em Recife e Fortaleza. Já em Manaus, Belém, São Luis, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju, somente a partir do segundo semestre de 2018. Apenas no final daquele ano o apagão atinge o interior do País. Veja aqui quando o apagão analógico acontece em seu município.

A migração tecnológica deveria ter começado antes da Copa do Mundo. O prazo foi estendido devido a pedidos das emissoras abertas para conclusão de infraestrutura. A prorrogação para 2015 enfrentou decisão de suspensão, pelo TCU, do leilão da faixa dos 700 megahertz (MHz) – utilizada pelas transmissões analógicas e já destinada à frequência da tecnologia de quarta geração (4G) do serviço de telefonia móvel. Atualmente, a 4G opera somente na faixa de 2,5 gigahertz, leiloada em 2012. Com isso, o cronograma foi alterado.

O leilão aconteceu agora em setembro. Das operadoras, apenas a OI não mostrou interesse. O governo previa conseguir R$ 8 bilhões com a venda pública para as conexões em 4G na faixa dos 700 MHz, mas arrecadou menos, R$ 5,851 bilhões – com um ágio médio de 0,66% em relação ao preço mínimo.

Os vencedores da licitação – Vivo, Tim e Claro – terão de arcar com os custos de remanejamento e outras questões, como filtros para impedir interferência de sinal que podem gerar a “tela preta” nas captações da TV aberta.

Ainda estão sendo concluídos estudos de recanalização para os estados do Sudeste, Distrito Federal e Goiás, área habitada por 41% dos brasileiros.

Somente depois serão efetuados em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os estudos de recanalização do Norte, Nordeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já estão, praticamente, finalizados.

Segundo o MiniCom, o objetivo é reduzir ao máximo a quantidade de cidades onde será preciso desligar o sinal analógico e liberar a faixa de 700 Mhz.  

A perspectiva é desligar apenas 630 pontos, o que deve afetar 1200 cidades. Há um estudo que aponta 724 cidades onde o sinal analógico precisa ser desligado.

O processo não se resume a números e datas e promete ser complicado para o governo, a indústria de radiodifusão e, evidentemente, para a população. Além da superação do conflito no espectro com a TV aberta, o próprio cronograma é outro dos motivos de preocupação por parte dos radiodifusores:

Eles veem uma “curva muito acentuada no final do projeto”, ao invés de uma distribuição mais equilibrada durante os quatro anos de implementação. “Parece que o problema mais difícil será deixado para o final, e nós estamos falando de um universo de municípios enorme e de população pequena”, salienta Davi Britto, membro do conselho deliberativo do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital-SBTVD.

Agora – após o leilão da faixa dos 700Mhz – e ainda segundo o cronograma oficial, deverá ser montada a Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV – EAD e o órgão responsável pela sua governança, o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV – Gired.

Conforme a Anatel, o EAD será o órgão que adquirirá e instalará os equipamentos de infraestrutura de radiodifusão para os canais de TV e RTV, além de garantir linha de crédito de R$ 3,6 bilhões para auxiliar na atualização da infraestrutura do sistema. 

O órgão também será responsável por garantir a instalação de filtros em locais com interferências e de conversores de sinal para parte da população. A pedido do governo, cerca de 15 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família terão direito a uma set-top box gratuita (equipamento de conversão do sinal analógico para digital).

Para os demais cidadãos/telespectadores, a compra dos sistemas deverá ser feita livremente no mercado. Lembrando, contudo, que a maioria dos aparelhos digitais já vem com conversor embutido e que não há necessidade de adquirir canais por assinatura para assistir à TV aberta.

Mas fique certo que aquela velha relação que 95% dos lares brasileiros mantêm com a televisão, aliás, como nossas vidas, já estão sendo transformadas, em “um passo gigantesco”, digo, novos olhar, áudio e comportamento, frente à frente com a revolução advinda com as Smart TVs digitais, conectadas e interativas.

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Leia, também, “TV digital, revolução na plataforma”,  em   https://albenisio.wordpress.com/2011/11/01/299/

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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

 

Sob o manto do marketing político

A sociedade do espetáculo, mesmo na era do capitalismo cognitivo, vive sob o imperativo da mercadoria. Um fascinante universo em que tudo tende a se converter em produto. Quem opera na área de marketing sabe o quanto a eficácia de um produto está diretamente relacionada, mais que à sua utilidade ou ao seu conteúdo (porque existem diversos similares concorrendo entre si), à forma com que é apresentado. Por isso expande-se, a cada dia, o mercado produtor de embalagens.

Elas se tornaram determinante para o sucesso dos produtos em todos os setores da economia e, também, na esfera de campanhas eleitorais como a em que transitamos, via rádio e TV, desde 19 de agosto e até 2 de outubro. Convenhamos que, no marketing político, o ato de “estampar” os candidatos junto ao eleitorado potencial possui a mesma função, para efeito da publicidade, que a dos bens industrializados.

Isto é, produtos indiferenciados, políticos com as mesmas ideias e propostas, são apresentados como se diferentes fossem. Do mesmo modo, candidatos divergentes são convertidos em similares. Transformados em marcas, o objetivo é que 141,8 milhões de eleitores-consumidores, expropriados de sua real cidadania e injetados pelo recall (lembrança), votem (ou comprem) de acordo com a marca de sua predileção.

Tais ferramentas de sedução mobilizam sorrisos photoshop, emoções lacrimejantes, promessas irrealizáveis. Esbravejam denúncias, acenam novos compromissos sob a fiança de programas de governo, a assegurar a realização de direitos sociais, qualificação dos serviços públicos e expansão da gratuidade, nos casos dos cargos executivos, ou a defesa de demandas sociais sempre gritantes, no caso dos candidatos aos parlamentos, frente à sociedade exaurida a alimentar a esperança de um novo porvir.

Mas, afinal, de qual modo as campanhas políticas contribuem para a educação política dos cidadãos, para a compreensão das diferentes posturas ideológicas predominantes e que correspondem à existência de interesses sociais contraditórios?

A tendência da política como espetáculo consolidou-se no Brasil desde a campanha presidencial de 1989, case recorrente, com a eleição de Fernando Collor, levada a efeito pelo papel decisivo desempenhado pela Rede Globo e pela própria campanha do candidato valorizando a imagem de juventude, a alegada condição de não comprometido com os vícios (as corrupções) da política e para dar no que deu, o histórico impeachment.

A propaganda eleitoral de Lula da Silva, por seu turno e à época, parodiava programas da mesma Globo – a assegurar propostas de ruptura com o FMI (afinal realizada) e em defesa da reforma agrária (permanentemente adiada). Derrotada, a estratégia do PT passou a seguir caminho oposto, com adesão à ideologia neoliberal, conforme se verificaria no início do seu primeiro governo, em 2003.

Contrariando o filósofo Antonio Gramsci, há teóricos no espectro partidário da esquerda que acreditam ser possível, no marketing político, subordinar a “transmissão de conteúdos políticos transformadores da realidade social”, desde que as técnicas de marketing estejam sob controle das instâncias partidárias. Supõem poder separar forma e conteúdo. Ou seja, uma forma burguesa (o marketing) serviria para divulgação de conteúdos revolucionários (o socialismo). Conforme o poeta Vladimir Mayakovsky, “não há forma revolucionária sem conteúdo revolucionário”.

Para Gramsci, a ideologia da classe trabalhadora não difere da ideologia burguesa apenas no conteúdo, mas na forma como deve ser construída, com a “participação ativa dos trabalhadores”. Contudo, o que seria a construção de uma concepção de mundo oposta à visão burguesa, afastou-se numa representação. O espetáculo “é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (Guy Débord), submetendo o homem depois que a economia já o arrasou inteiramente.

E assim, nessa tênue democracia representativa, com 31 partidos em disputa, seguimos embrulhados, devidamente alienados dos nossos reais interesses, em favor de propósitos governantes a nos surrupiar a alma sob o manto do capitalismo. Até quando, Oscar Wilde?

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Albenísio Fonseca é jornalista

 

Religião na TV

Religião na TV ou,
o sacrifício dos cordeiros

Albenísio Fonseca

Não é só de replicação da barbárie cotidiana que vive a TV aberta no Brasil. Outro “fenômeno” que se evidencia abusivo é a ocupação dos horários, de modo intermitente, por programas religiosos, no que se tem convencionado designar por igrejas eletrônicas, notadamente as do viés evangélico, sejam a Universal, Mundial, Renascer ou da Graça de Deus.

“Em nome de Jesus”, tanto na TV quanto no rádio, país afora, o proselitismo de pastores visa acima de tudo conquistar novos adeptos. Contudo, o que se expande não são apenas os programas religiosos, exibidos nas emissoras comerciais em horários vendidos às igrejas e organizações religiosas pela considerável cifra dos R$ 500 mil a R$ 1 milhão mensais, mas, sobretudo, o número de emissoras religiosas: Rede Vida, Rede Canção Nova, Rede Família, Rede Boas Novas, Rede Gospel, Rede Super, etc, etc… Algo superior a 15 redes, com emissoras espalhadas por todo o pais, sob cobertura nacional via satélite. Sim, e em que pese as 142 possibilidades de enquadramento religioso previstas pelo censo.

Outro dado significativo é o de que, “coincidentemente”, a predominância desses tipos de programações – a que explora a violência e a que ilude sob o manto da fé religiosa – ocorrerem em emissoras vinculadas a estas igrejas, notadamente a Record – uma broadcasting da Igreja Universal do Reino de Deus.

Na conclusão a uma pesquisa feita em 114 nações e divulgada em 2010, o Instituto Gallup mostra a correlação entre o grau de religiosidade da população e a renda per capita: “Quanto mais religiosos são os habitantes de um país, mais pobre ele tende a ser”. Na contraface da pesquisa do Gallup, a sociologia sempre apostou na tese de que a pobreza é que facilita a expansão da religião.

Segundo o monitoramento da programação das redes de TV aberta da ANCINE, a religião foi o principal gênero de programação na TV aberta brasileira em 2012 –  chegando a 13,55% da programação, a frente dos gêneros variedades (10,45%), telejornais (10,43%), musical (8,48%) e o telecompras (7,51%). Em alguns casos, o problema é mais grave, como na Bandeirantes (17%), CNT (37%), Record (23%), Rede TV (38%) e Gazeta (15%).

Conforme o noticiário, desde o último sábado (9/11), a Rede 21 inseriu na programação os programas produzidos pela IURD TV, produtora da Igreja Universal do Reino de Deus, substituindo a WS Music, da Igreja Mundial do Poder de Deus. A substituição aconteceu também no espaço que o grupo possuía nas madrugadas da Band. As mudanças são mais um capítulo da briga entre o bispo Edir Macedo e o apóstolo Valdemiro Santiago por espaço na mídia brasileira.

Mundial e Universal disputavam nos últimos meses o contrato com o grupo Bandeirantes e, no fim das contas, o apóstolo Valdemiro Santiago foi desbancado pelo bispo Edir Macedo. Especula-se que o despejado tenha uma dívida de R$ 21 milhões e a inadimplência teria gerado o rompimento do contrato. O líder religioso despejado estaria pedindo R$ 200 milhões em indenização. Negocia-se também um retorno à grade em janeiro, quando as duas igrejas passariam a dividir o espaço da programação.

Antes do rompimento, a Igreja Mundial controlava 21 horas diárias de programação na Rede 21, e as madrugadas (3h-6h) da Band. Estas últimas, negociadas em 2011 em uma jogada que retirou o pastor Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo) da emissora paulista. As noites da emissora são divididas também com a Igreja Internacional da Graça de Deus (do pastor R.R. Soares).

Projeto de Lei de Mídia Democrática, defendido pelo Movimento de Democratização da Comunicação, prevê a proibição de arrendamentos de horários em concessões públicas de TV, veda a outorga a instituições religiosas e limita o tempo de veiculação de conteúdos religiosos.

 A denominada Igreja Eletrônica expandiu-se no Brasil a partir da década de 80. Seu formato, desde sempre, preconiza a trilogia “reza, cura e salvação”. A salvação é oferecida, como diríamos de uma mercadoria, em púlpitos de templos miraculosos e na vitrine desses programas (já não mais em outro mundo).

Porém, via de regra, e até ungindo celulares, o que os pastores pretendem e têm conseguido, são as contribuições financeiras dos seus rebanhos de incautos, mas fiéis ouvintes e telespectadores – esses mesmos, os cordeiros em sacrifício.

1984


Na montagem, sobre fotograma da última versão cinematográfica do livro, Pedro Bial assume a função do “Grande Irmão” ao ser o único participante do jogo a estar em contato com o mundo real e assim “instruir” os reclusos

1984 é agora, ou o

real invadiu a ficção?

Albenísio Fonseca

 A transformação da realidade e seu total controle é o tema principal de 1984, o livro de George Orwell, escrito em 1948.  A ação se passa em Oceania, um fictício bloco de países que, simulando uma democracia, vive sob o totalitarismo desde que o IngSoc (o Partido) chegou ao poder sob a batuta do onipresente Grande Irmão (Big Brother). O controle total é a norma sobre a população, numa política de subordinação implacável.

Inspirado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40 do século XX, o livro  (escrito na terceira pessoa) não se resume a apenas criticar o stalinismo e o nazismo, mas toda a submissão da sociedade, a conversão do indivíduo em peça para servir ao estado ou ao mercado, através do controle sobre o pensamento,  a redução do idioma e descartada toda e qualquer noção de esperança.

O personagem principal do livro, Winston Smith, membro do partido externo, funcionário do Ministério da Verdade, tem como função apagar o passado, reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Mas Winston passa a refletir e questionar a opressão exercida sobre os cidadãos. Na Oceania, se alguém pensasse diferente, cometia crimidéia (crime de ideia em novilíngua) e fatalmente seria capturado pela Polícia do Pensamento, torturado e morto ou coisa pior. Desaparecia.

Winston não sabia de qual modo, mas precisava extravasar o que sentia. Como não seria seguro comentar suas angústias e sem dispor de respostas satisfatórias, compra clandestinamente um bloco e um lápis (artigos de venda proibida, adquiridos num antiquário).

Para verbalizar seus sentimentos, Winston atualiza seu diário usando o canto “cego” do apartamento. Onde a teletela – o olhar do Grande Irmão, a vigilância do Big Brother – não pudesse vê-lo.

A primeira frase que Winston escreve é justificável e, há de se convir, permanece atual: Abaixo o Big Brother!

Winston, uma representação do homem comum – protótipo do anti-herói – também tinha dificuldades para lembrar do passado e da vida pré-revolucionária. Os esforços da propaganda do Partido com números e “duplipensamento” tornavam a tarefa quase impossível já que o futuro, presente e passado eram controlados pelo Partido.

No Miniver (Ministério da Verdade), ele alterava dados e jogava no incinerador (Buraco da Memória) os originais de tudo que pudesse contradizer as verdades do Partido.

Metáfora dos anos pós-guerra com reflexos na contemporaneidade, a função de Winston é uma crítica à fabricação da verdade pela mídia, à impossibilidade de acesso ao conhecimento e à ascensão e queda de ídolos de acordo com alguns interesses.

Seu envolvimento amoroso com Julia também constitui uma transgressão. As normas do Partido deixavam claro que membros da organização, principalmente dos sexos opostos, não deviam se comunicar a não ser a respeito de trabalho. O sexo só é permitido para a reprodução.

O Partido informa: a ração de chocolate semanal aumenta para 20g para cada cidadão. O trabalho de Winston consistia em coletar todos os dados antigos que descreviam que a ração antiga era de 30g e substituí-los pela versão oficial.

A população agradece ao Grande Irmão pelo aumento devido aos propósitos midiáticos do poder. E extravasa no lazer dos “dois minutos de ódio” um medonho êxtase de medo e vingança contra os “traidores”, a desejar que outros morram, numa explícita associação à perseguição de Stálin a Trotsky. A Oceania vive em guerra permanente contra outros dois blocos, a Eurásia e a Lestásia.

Sem perceber uma câmera oculta, Winston é preso pela polícia do pensamento ao expressar sua constatação sobre a plebe, “nós somos os mortos”. O amigo O’brien converte-se no seu torturador. Solto, rebaixado a um subcomitê, o pretenso revolucionário que acreditava na Fraternidade termina seus dias jogando xadrez sozinho no ambiente malvisto do Castanheira Café. Como se lobotomizado – à semelhança de Alex, o anti-herói de A Laranja Mecânica (livro de Anthony Burgess, publicado em 1962 e levado cinema por Stanley Kubrick, em 1971),  submetido a uma  “terapia experimental de aversão” – Winston “aprende” a amar o Grande Irmão.

Antes, escreveria um extraordinário paradoxo em seu diário: “Eles só se libertarão quando se revoltarem. Mas eles só se revoltarão quando se libertarem”.

Afinal, somente seria possível concordar com o ficcionista David Bryn, para quem “a forma mais poderosa de ficção não está num livro, num filme ou numa história que preveja o futuro, mas numa história que impeça o futuro”, na medida em que tivéssemos escapado ilesos ao vaticínio contido neste magnífico livro.

Videocolagens


Nuvens (2002). Cory Arcangel. Modded Super Mario Brothers cartucho e projeção Top – detalhes (Arcangel). Bottom, instalação tiro no Museu Whitney (Knudsen).

Videocolagens

Novel, novelo. Personagem de novela. Horário nobre das paixões. A tevê funciona como um espelho mágico. Cria toda uma simulação de que o drama vivido por personagens fictícios nos envolve. Paixões irradiantes. Alucinação colorida da contemporaneidade. Faz com que tornemo-nos narcisos eletrônicos. Real e ficção contornando a sala de estar. Com vale tudo é olho por olho. Ao contrário das manifestações culturais autênticas, a mídia impõe o seu repertório, proporciona o seu próprio manancial.

Móvel, modelo. História ingênua. O bem vencendo o mal. Olhar convexo da ira mórbida. As contradições do social sendo naturalizadas na tela quente. Como juntar as peças desse mosaico? O Brasil é mesmo isso, um enorme quebra-cabeça. E a televisão, no fundo, é apenas o dado sintomático do diagnóstico mais geral. Miséria de um cotidiano produzido em frente às câmeras. Zoom total do panorama fragmentário.

Personagem surpreendente. Vai ao restaurante natural e bebe Coca-Cola com casco e tudo. O espetáculo está em toda parte. Condensação do dia-a-dia, em capítulos. Trama hilariante das nossas próprias vidas. Reflexo vivo de uma economia em crise. O espetáculo é assim, submete os humanos depois que a economia já os arrasou inteiramente. Corta, entra comercial.

Manifestações na Venezuela ou Coréia do Sul. Anos depois de Paris, Caracas, Seul, Porto Alegre, Brasília. Cairo. Na geografia dos povos, como na arte, não há fronteiras. Europa 2011. E o mundo explode longe da nossa cama. A Bahia e o Oriente Médio incendeiam suas guerras santas em pleno início do século XXI. No século passado, uma luta de boxe se converteria no menor espetáculo da história. 13 segundos. Tela fria: “Em algum lugar do passado”, o filme, serve para demonstrar o caráter cíclico da moda. O personagem retorna um século, mas sua indumentária está defasada, ainda assim. Foi moda há 10 anos um século antes.

Peças de um mesmo jogo. Mosaico. Assassinato brutal. O vídeo derrama-se em sangue. O uso de drogas convertido em um acessório para prazer e tragédia do homem moderno. Videoclipe da ilusão. É o sentido de tudo o que há de ingovernável. Tábuas da lei. Ulisses seduzido pelo canto das sereias. Quanto nos custa dar a outra face da mesma moeda?

Novel modelo. Móvel novelo. A televisão funciona. Nós funcionamos via televisão. Telerrealidade. Psicosfera do reversível. VT. Condicionamento molecular. Programação em cores, preto-e-branco. Exclusivo. Desnoticiário.

Fomentar o consumo irrefreado nas crianças. Violência juvenil. O primeiro amor, o primeiro beijo, a última novela. João Gilberto faz assim: mantém um aparelho de tevê ligado ininterruptamente, mas sem som.  Já no filme The Wall, do Pink Floyd, uma das cenas de maior impacto é quando o personagem aturdido (leia, completamente pirado) destrói todo o apartamento e lança do último andar o aparelho de tevê.

Corte abrupto. Falta de energia. O mundo fora do ar. Recorte eletrônico. Assis Chateaubriand inaugura a TV Tupi quebrando a champanhe sobre uma das duas câmaras. Naum June Paik. Um tiro do videoasta alemão Wolf Vostell num aparelho de tv, há 200 metros, em 1963. Fera radical. Orgasmo duplo em transmissão simultânea, de Nova Iorque ao Xingu.

Manifestação instantânea de telespectadores: em lugar de coquetéis molotov lançam monitores. O imaginário explode em imagens. Corta. Entra transmissão em cadeia nacional. A lua brilha sobre a janela. Minha namorada adora dormir com o aparelho ligado, principalmente depois que a programação das emissoras chega ao fim. Puxo a tomada e, olhar de videoscope, vejo a parede vir junto. Desabo de sono.

E-leiç@o 2010 e Socialismo 2.0

E-leiç@o 2010 

e Socialismo 2.0

Albenísio Fonseca

Neste domingo, dia 3 de outubro, 135,8 milhões de brasileiros vão às urnas para escolher o novo presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais ou distritais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estima o custo total das eleições de 2010 – primeiro e segundo turnos em todo o país – em R$ 480 milhões. O Orçamento federal previsto para o pleito era de R$ 549 milhões.

O montante médio dispendido por eleitor é de R$ 3,56 reais, o menor já investido em eleições gerais. Em 2002, o gasto total foi de R$ 495 milhões, e cada eleitor custou R$4,31. Em 2006, o custo por eleitor foi de R$ 2,58, para um gasto total de R$ 450 milhões.

A entrega de lanches e o pagamento de R$ 20 a cada um dos 2,1 milhões de mesários tem um custo de R$124, considerando a realização de segundo turno. O transporte das 477 mil urnas para os locais de votação dispenderá R$ 35 milhões, já a campanha de esclarecimento aos eleitores na TV, no rádio e na internet, de acordo com o TSE, custou R$ 4 milhões.

Os gastos envolvem ainda a transmissão via satélite das votações de urnas em locais distantes, modernização do sistema de identificação de eleitores – o leitor biométrico – além da aquisição ou manutenção das urnas.

Com a crescente adoção das redes sociais, na Internet, muitos candidatos conseguiram não só ampliar votos, mas dispor da ação multiplicadora de internautas, principalmente no Facebook e Orkut, enquanto o Twitter, do mesmo modo, proporcionou repercussão de denúncias, visibilidade para candidaturas e links para sites de campanhas, além de ações conjuntas, os tuitaços. Todos, contudo, tendo que enfrentar o bloqueio adotado por grande número de adeptos das redes sociais, somando-se à apatia total do eleitorado.

O fato novo que se vislumbra é que, sem a necessidade de voltar a debruçar-se sobre o velho Karl Marx, criador da mais influente utopia político-econômica que moldou as relações sociais do século XX, a Internet consolidou o antigo sonho do Socialismo. Mas refiro-me ao “Socialismo 2.0”. A tese, com base no colaboracionismo instaurado na rede mundial de computadores, foi criada pelo pensador e escritor norte-americano Kevin Kelly, especialista em tecnologia. Para ele, o desenvolvimento de sites colaboracionistas, como a Wikipédia, entre milhares de outros, sugerem um movimento constante em direção a uma espécie de socialismo excepcionalmente atento para um mundo conectado.

Presume-se que os partidos ditos de esquerda, sem maiores lutas sangrentas pela tomada do poder, e sem o horizonte de replicar regimes comunistas a partir de modelos como os da ex-União Soviética, da própria Rússia, China, Cuba, Vietnã, Nicarágua ou Albânia, tenham encontrado, finalmente, na Internet, a grande pátria do Socialismo, mas em sua versão digital.

Já o embate ideológico nessa campanha consistiu no posicionamento de setores da mídia convencional, evidenciado em mera preferência por determinada candidatura – a de José Serra (PSDB-DEM) em detrimento da de Dilma Roussef (PT-PMDB) – e contrária ao governo Lula. Sem propostas, exceto as apresentadas por Marina Silva (PV), as campanhas à presidência da República transcorreram em clima de frustração pós-Copa do Mundo, nessa nossa política de embananamentos futebolares.

No mais, vale lembrar que a história do voto no Brasil começou 32 anos após Cabral ter desembarcado nestas terras. No dia 23 de janeiro de 1532 os moradores da primeira vila fundada na colônia portuguesa – São Vicente, em São Paulo – foram às urnas para eleger o Conselho Municipal.

A votação foi indireta: o povo elegeu seis representantes, que, em seguida, escolheram os oficiais do conselho. Era proibida a presença de autoridades do Reino nos locais de votação, para evitar que os eleitores fossem intimidados.

Somente em 1821 as pessoas deixaram de votar apenas em âmbito municipal. Na falta de uma lei eleitoral nacional, foram observados dispositivos da Constituição Espanhola para eleger 72 representantes junto à corte portuguesa.

Os eleitores eram os homens livres e, diferentemente de outras épocas da história do Brasil, os analfabetos também podiam votar. Os partidos políticos não existiam e o voto não era secreto. Agora, vamos às urnas e aos resultados que a apuração também é eletrônica.

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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br