O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

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A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

Fórum do Pensamento Crítico

Foto: Albenísio FonsecafotoMesa do Fórum do Pensamento Crítico, no Conselho Estadual de Cultura, que abordou o tema Cidades e Festas

Fórum do Pensamento Crítico

A estratégia eleitoral da cultura 

Albenísio Fonseca

O “Desocupa Salvador” foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira de fevereiro, no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento” que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital.

Menos como artigo, mas enquanto relato crítico, vimos o evento ser aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, a justificar a iniciativa sob o propósito de que a “cultura seja inserida na agenda dos partidos”, neste ano eleitoral. Rubin salientaria, ainda, que o tema incluía “as cidades” por conta do “expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial (no século XVIII) e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX.

Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA.

 

Wlamira ilustrou sua fala com uma pintura de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu ao rei etíope Menelik II, homenageado pelo afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897, e nos fez contemplar a imagem do poderoso soberano que derrotara os italianos, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes.

“Menelik chegaria à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. A ótica da historiadora é a de que, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defende a lógica de que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”, e sugere “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano. Ele fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, senão politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e provocou o “papel cultural dos diretores de escolas”, sem relevar a crise educacional que atravessa as escolas públicas.

 

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, como o faz  nas  entrevistas que tem concedido, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”. Ao sugerir a “supressão do carro de apoio” no desfile dos blocos, para economia de espaço na avenida”, toca numa espécie de estande ou gôndola móvel, frenesi para sub personalidades e balcão de cervejaria.

Miguez deu o tom da inserção na campanha eleitoral ao criticar pré-candidatos à Prefeitura de Salvador, pelo “senso comum das opiniões emitidas”, ou seja, por não entenderem nada de Carnaval, e cravou a máxima: “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

 

Já Ordep Serra concentrou-se na Salvador em plena “desregulamentação urbana” e no quanto o Carnaval tende a “naturalizar essa situação”. Ao mencionar a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie”, com as “desigualdades sociais transbordando pelas festas”.

 

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; importância da festa de Itapuã, mobilidade urbana e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval. Planejado para ocorrer durante todo o ano como uma estratégia da cultura para a campanha eleitoral, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

 

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Albenísio Fonseca é jornalista

Afoxés – Anunciadores do futuro

fotoAfoxé Filhos de Gandhy – foto histórica com estivadores do porto de Salvador

Afoxés, a estratégia do

candomblé no Carnaval

Albenísio Fonseca

Enquanto escolas de samba cariocas como a Portela e a Imperatriz Leopoldinense, ou a paulista Mocidade Alegre, consolidam espaço na mídia tendo Salvador (a mítica “cidade da Bahia”), a literatura de Jorge Amado e as festas populares como temas, 23 afoxés, em Salvador – com proposições lúdicas e sócio-educativas similares à das agremiações carnavalescas do Rio e São Paulo – enfrentam dificuldades para botar o bloco na rua.

A singularidade dessa manifestação cultural, originada na Bahia e consolidada no estado como patrimônio imaterial desde novembro de 2010, não surgiu como mero entretenimento. Trata-se de uma expressiva estratégia da comunidade negra para escapar à intolerância religiosa da época e professar (tanto quanto preservar) o candomblé.

A reação partiu de um grupo de estivadores do porto de Salvador, reconhecidos como ogans (personalidades que se destacam na sociedade iorubá). Decididos a buscar alternativa para brincar o Carnaval, consultaram um babalorixá. Conta-se que este teria jogado os búzios (Ifá) e a mensagem advinda foi a de que deveriam sempre fazer oferendas a Exu (mensageiro dos orixás) e que o agrupamento deveria se chamar Afoxé (“que o futuro se cumpra”).

Criminalizado pela igreja e pelo estado, o candomblé era proibido de ser praticado. Ou seja, como não podiam proceder em casa os rituais aos orixás, inquices e voduns, com seus toques, cantos, oferendas e dialetos, adotaram o momento do Entrudo (como então era denominado o Carnaval) e o território das ruas em festa para expressão da fé e, convenhamos, surpreendente exercício de cidadania.

O afoxé Embaixada da África foi o primeiro cortejo negro a desfilar pelas ruas da Bahia, em 1895, em pena República, mas, sem duvida, ainda bem próximo dos legados do regime imperial e seu sistema escravocrata. Desfilou utilizando indumentária originária da África. No ano seguinte, surgiria o Pândegos da África, depois o Folia Africana. Logo, a Baixa dos Sapateiros se converteria em sua principal passarela.

Em suma, os afoxés têm raízes nas congadas e folguedos das senzalas, surgem como táticas de resistência do candomblé, de defesa da raça negra, e se expandem após a Abolição. Saídos das favelas e quartos de criados, já em 1920 o Congos d’África se configuraria em “colossal candomblé a perambular pelas ruas”, na definição de Nina Rodrigues.

Legado de três gerações, o Congos d’África fora criado pelo velho Reginaldo, o Dodô, na área do Dique do Tororó – um território sagrado para o “povo de santo”. Ressurge sob nova denominação, Filhos do Congo, fotografado por Pierre Verger, em 1948, e resgatado por Ednaldo Santana, o Nadinho, em 1979, no que se poderia considerá-lo o mais antigo dos afoxés.

Mas a manifestação não se restringe ao Carnaval de Salvador. Há afoxés em municípios baianos (Feira de Santana, Alagoinhas e outros) e em capitais do país, oito dos quais no Rio de Janeiro, quatro em São Paulo, cinco em Sergipe, dois no Rio Grande do Sul, três em Santa Catarina e 30 em Recife, num total de 148 agremiações em todo o Brasil, a seguir o ritmo ijexá.

A formação original dos afoxés envolvia arautos e fanfarra que anunciavam a passagem do préstito com instrumentos como trombetas, trompetes e clarins; guarda branca, rei, rainha, babalotin, estandarte (geralmente bordado a fios de ouro), guarda de honra, charanga (músicos que tocavam atabaques, agogôs, xequerês e afoxês).

A assinalar diferenças estão as indumentárias (abadás), cores (vinculadas aos respectivos orixás), cantigas em iorubá, além dos instrumentos de percussão. O ritmo e a dança na rua reproduzem a dos terreiros, bem como a melodia entoada. As músicas, agora selecionadas em concorridos festivais, são puxadas pelo cantor do grupo e repetidas por todos, inclusive os instrumentistas.

Os componentes, normalmente vinculados aos terreiros de candomblé, têm consciência de grupo, valores e hábitos que os distinguem de qualquer outra entidade no Carnaval. Para quem não conhece o candomblé e seus cânticos, a sensação é de que seja apenas um bloco carnavalesco diferente, mas trata-se de uma expressão simbólica a reverenciar ancestralidades pelas ruas. Segundo pesquisa e publicação patrocinada pelo IPAC – Desfile de Afoxés – em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura para desfilar, o que lhes fora negado gerando intenso debate na imprensa. Em 1906, foram publicadas medidas para regulamentar o Carnaval no jornal “A Bahia” e, entre estas, uma proibição à “exhibição de clubs de costumes africanos, candomblés”.

Filhos de Gandhy – o mais famoso e com maior contingente, fundado em 1949 – expressa uma raiz indiana (asiática), não propriamente africana como os demais, sob o lema da paz professada pelo Mahatma Gandhi, também é originário de estivadores. Seus primeiros “lençóis brancos” teriam sido oferecidos por prostitutas do cais. Os dirigentes do afoxé têm sido alvos de críticas por não participarem de atividades em defesa de interesses da raça negra, e por não promover atividades culturais ou educativas, como assegura Ednaldo Sanana, presidente da Associação Baiana e da Federação Brasileira dessas agremiações.

Mantenedores de verdadeiros pontos de cultura, os afoxés aliam integração comunitária à educação e possibilitam aulas de dança e música, elementos constitutivos da cultura negra, considerando, ainda, a íntima relação entre corpo e ritmo como fator estruturante para diversos níveis de sociabilidade. E, assim, desejar que os anunciadores do futuro nos toquem cada vez mais próximo.

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Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

Across the carnival (revisited) e O axé sob contingência

Across the carnival

(revisited)

Albenísio Fonseca

 

Atravessando o carnaval. O título em inglês, permita, é uma paródia à música dos Beatles “Across the universe” que em 4 de fevereiro de 2008, numa estréia absoluta, foi transmitida pela Nasa, como celebração aos seus 50 anos de fundação.
Segundo a agência espacial americana, a transmissão  fora orientada na direção da estrela Polaris, a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra. 

Mas são os ecos da folia que ainda atravessam minha cabeça dura. O impactante documentário “Cordeiros” de Amaranta Cézar e Ana Rosa Marques, ao revelar trincheiras da luta pelo exíguo território das avenidas do Carnaval, mostra o quanto a organização da festa envolve a divisão e a desigualdade na geografia urbana e na estrutura social de Salvador, em seu micro esplendor de sociedade do espetáculo. Urge que o documentário seja reexibido, inclusive pelos canais das TVs Câmara e Assembléia Legislativa, e  tendo os próprios parlamentares na audiência.

Através das imagens e vozes dos cordeiros, a corda torna-se um limite tênue, perturbador, por si só violento; um muro que explícita tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Mais que uma metáfora de navios negreiros, trios elétricos a singrar o Atlântico Sul dos circuitos da visibilidade do que se presumia, até então, apenas um grandioso festejo.

No mesmo universo, a iniciativa inteiramente legal de licitação da comercialização da festa, ganha pelo publicitário Nizan Guanaes pela soma de R$ 6 milhões, sabe-se agora, era válida por dois carnavais.

Em meio ao surto de consumo indevido com cartões corporativos por ministros do Governo Lula, outro fato estarrecedor publicado no Diário Oficial da União de 20 de dezembro de 2007, na Seção 1, página 44: duas inexplicáveis doações do Ministério da Cultura à empresa Madeirada Produções e Eventos que somaram R$ 2 milhões como patrocínio por seis shows da cantora Ivete Sangalo em vários estados do país, além de três apresentações, dela mesma, no trio-elétrico Corujas,
no carnaval 2008.

Na página 89, outra doação: mais de R$ 400 mil, feita à mesma empresa, como patrocínio ao Bloco Cerveja & Cia para seu desfile pelo circuito Barra-Ondina.     Que universo é esse? Na canção de John Lennon a atravessar estrelas, o mantra repetido: “Nada vai mudar meu mundo” é bem sintomático.
Por aqui, nada parece mudar o Brasil. Mas o carnaval baiano – como o país – precisa de um processo de organização que altere as graves distorções nas relações de trabalho que o perpassam. “Jai guru deva OM!” Ou melhor, valha-me meus orixás.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

O axé sob contingência

Albenísio Fonseca 

A força avassaladora e contagiante da axé music, com seu modelo “made in Bahia for export”  tem sofrido restrições em territórios carnavalescos país afora. Embora seus artistas e produtores sejam promotores de carnavais fora de época, em eventos como o CarNatal e Recifolia, entre outros, quando reina absoluto, o ritmo “axé” foi proibido, diria mesmo censurado, nos carnavais de Recife,
Olinda e nas cidades históricas de Minas. Em Ouro Preto , Mariana e São João Del Rey
a música baiana só pode ser tocada em ambientes fechados, fora do circuito oficial da festa, e sob cobrança de ingressos.

Em Olinda, por decretos do Executivo, ficaram proibidos o beijo na boca, sob a alegação de que estariam ocorrendo “arrastões de assédio” – legislação burlada, principalmente nos redutos gays da cidade em festa; e a circulação de táxis, restrita apenas à frota local. No Recife Antigo, a interdição à axé music nos fez contemplar tradicionais manifestações pernambucanas. Dorival Caymmi, se vivo estivesse, poderia reencontrar, sob a chuva intensa, sua “Dora, rainha do frevo e do maracatu”.

Em Salvador cada vez mais ficam menos tênues os limites da geografia do sagrado e do profano no ciclo de festas, vide a revitalização proporcionada por Gerônimo nas escadarias do Passo. Uma intervenção anterior ao seu reinado de Momo. Em Pernambuco, numa rota inversa à roda viva da dinâmica cultural – e mesmo cabendo a Caetano Veloso proceder à abertura da pernambucália folia esse ano – o impedimento a que o ritmo baiano passasse a “cantar de galo” compõe, muito mais que uma reserva de mercado, a legítima preservação do que há de mais genuíno nas expressões populares do estado vizinho.

Por aqui, temos a festejar o tombamento do Carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia e o investimento do estado nos carnavais de Palmeiras e Rio de Contas, que têm manifestações culturais tradicionais e peculiares. Festejar, também, o toque de Midas de Carlinhos Brown, extensivo à sua magnífica presença na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, com seus tambores campeões do Carnaval carioca, e sua quase-marcha “Vai chamar Dalila”, na voz de Ivete Sangalo, mais tocada do período momesco (e que já virou gíria no submundo), em concorrida disputa com o mega axé “Beijar na boca”, da Cláudia Leite, que irritaria o prefeito de Olinda.

Se me coube um dia, em meados dos anos 80, ostentar o então pejorativo “axé music”, em caráter positivo, como título de reportagem,  para a nova onda musical baiana, e sou dos que integram o cordão do “É probido proibir”, tenho que admitir a importância da política cultural pernambucana, acenando para o coração do pierrô Alceu Valença a cantar nossa pluralidade cultural da sacada do casarão onde mora em Olinda.

No mais, lamentar ter perdido o engarrafamento de garçons, bandejas de whisky à mão cheia, no farto (Fausto) dispêndio do openbar oferecido no camarote do governo baiano. Contingenciamento à parte, é claro. Axé!

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor