Mobilidade Urbana

“Quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro” 

Estacionamentos
Mais que um paradigma
da mobilidade urbana

ALBENÍSIO FONSECA
 
Com as áreas para estacionamentos ocupando espaços valiosos das cidades, afetando de forma negativa o planejamento urbano, a crise da mobilidade vivida nas capitais brasileiras tem um dos mais dramáticos exemplos em Salvador.
A questão torna visível, também, a desigualdade social em meio à disputa pela oferta de vagas, envolvendo a exploração do serviço pela iniciativa privada ou pela Municipalidade, nas zonas azuis, através de guardadores e lavadores de carros sindicalizados, e nos mais diversos locais da cidade por centenas (senão milhares) de “flanelinhas”. Os guardadores clandestinos têm assumido também a condição de manobristas, no afã de garantir a renda para a sobrevivência diária.
O certo é que os estacionamentos deixaram de ser um requisito cômodo para se tornar em mais um catalisador da problemática mobilidade urbana, no âmbito da civilização do automóvel, em um cenário que se repete na maioria das capitais e mesmo em cidades de médio porte: excesso de veículos nas ruas, congestionamentos, índices perigosos de poluição do ar e horas perdidas no transito atrás de uma vaga, mesmo frente à tendência de verticalização para esses equipamentos. 
A constatação, portanto, e os urbanistas não cansam de sinalizar, é que, como um paradoxo, “quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro particular nas grandes cidades”, aliás, com grande parte de suas áreas já comprometidas ou projetadas para este uso e, ainda assim, a sofrer a carência de vagas. E mais, sob o agravante de que a capacidade de criar vagas não aumenta na mesma razão em que novos carros chegam às ruas.
Do mesmo modo é visível o quanto os estacionamentos geram novos comportamentos nas cidades, na medida em que todos os que optam pelo carro como meio de transporte são, sob o custo do inevitável estresse, obrigados a pensar em locais para estacionar.
Trata-se, em suma, de um amplo mercado a fascinar o poder público, empresários, donos de terrenos baldios, administradores de shopping centers e outros centros de compras, além dos “flanelinhas” e dos guardadores sindicalizados, a buscar uma vaga ao Sol ou sob a chuva, nessa moderna forma de serviço a expandir-se como lucrativo comércio no universo da urbanidade motorizada.
É um senso comum afirmar que “por não termos sistemas eficientes de transporte público, continuamos a usar o carro e então precisamos de estacionamentos”, o que é uma verdade a exigir maior qualidade no planejamento. Mas é correto também ter em conta o quanto não se pode mais planejar apenas sob a perspectiva do uso do carro. 
O planejamento urbano passou a requerer estratégias e ferramentas dentro de uma visão mais abrangente, que inclua os pedestres, os ciclistas e a integração com os diferentes modais de transporte, de modo que o espaço da cidade seja mais bem aproveitado. Estacionamentos, portanto, foram convertidos em paradigmas não apenas da mobilidade e densidade urbanas, mas do planejamento e da qualidade de vida nas cidades.
 
Primeiros estacionamentos surgiram em 1920
 
Os primeiros estacionamentos surgiram nas décadas de 1920 e 1930, quando o número de motoristas começava a aumentar em escala global e os carros passaram a ocupar um tamanho precioso do espaço público – bem entendido, o espaço entre as casas e prédios, assim como o por onde as pessoas antes caminhavam e passavam o tempo livre.
A imposição do carro no domínio público passou a atrapalhar a segurança e a vitalidade das cidades. Por isso, criaram-se legislações obrigando a criação de estacionamentos para todo tipo de empreendimento imobiliário e destino que se podia imaginar.
Desde então, cada viagem começa e termina em algum estacionamento, seja no trabalho, na escola, hospital estádios ou shopping center. O problema é que, em geral, todos que dirigem planejam seus deslocamentos pensando na necessidade de estacionar, de preferência próximos ao seu destino, intensificando o tráfego nesses locais na dispendiosa busca (haja combustível e paciência) por uma vaga.
Mais recentemente, quando as cidades atingiram picos de motorização, as pessoas passaram a gastar grande parte do seu tempo e dinheiro atrás de vagas, aumentando os efeitos negativos do excesso de carros nas ruas, como congestionamentos e a poluição do ar. Os estacionamentos deixaram ser uma boa ideia para se tornarem em mais um desafio para a mobilidade urbana sustentável.

 

Fórum do Pensamento Crítico

Foto: Albenísio FonsecafotoMesa do Fórum do Pensamento Crítico, no Conselho Estadual de Cultura, que abordou o tema Cidades e Festas

Fórum do Pensamento Crítico

A estratégia eleitoral da cultura 

Albenísio Fonseca

O “Desocupa Salvador” foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira de fevereiro, no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento” que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital.

Menos como artigo, mas enquanto relato crítico, vimos o evento ser aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, a justificar a iniciativa sob o propósito de que a “cultura seja inserida na agenda dos partidos”, neste ano eleitoral. Rubin salientaria, ainda, que o tema incluía “as cidades” por conta do “expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial (no século XVIII) e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX.

Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA.

 

Wlamira ilustrou sua fala com uma pintura de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu ao rei etíope Menelik II, homenageado pelo afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897, e nos fez contemplar a imagem do poderoso soberano que derrotara os italianos, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes.

“Menelik chegaria à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. A ótica da historiadora é a de que, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defende a lógica de que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”, e sugere “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano. Ele fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, senão politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e provocou o “papel cultural dos diretores de escolas”, sem relevar a crise educacional que atravessa as escolas públicas.

 

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, como o faz  nas  entrevistas que tem concedido, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”. Ao sugerir a “supressão do carro de apoio” no desfile dos blocos, para economia de espaço na avenida”, toca numa espécie de estande ou gôndola móvel, frenesi para sub personalidades e balcão de cervejaria.

Miguez deu o tom da inserção na campanha eleitoral ao criticar pré-candidatos à Prefeitura de Salvador, pelo “senso comum das opiniões emitidas”, ou seja, por não entenderem nada de Carnaval, e cravou a máxima: “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

 

Já Ordep Serra concentrou-se na Salvador em plena “desregulamentação urbana” e no quanto o Carnaval tende a “naturalizar essa situação”. Ao mencionar a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie”, com as “desigualdades sociais transbordando pelas festas”.

 

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; importância da festa de Itapuã, mobilidade urbana e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval. Planejado para ocorrer durante todo o ano como uma estratégia da cultura para a campanha eleitoral, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

 

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Albenísio Fonseca é jornalista