ATÉ QUANDO AS MAZELAS POLÍTICAS VÃO SE SOBREPOR ÀS NARRATIVAS CULTURAIS NO BRASIL?

                                                                                                               Arte: Oswaldo Guayasamín

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Albenísio Fonseca

Desde que entendida por gente, a sociedade brasileira convive de modo “natural” com extremos de desigualdade social e econômica a compor (com todos os seus artifícios) abismos intransponíveis entre os cidadãos em camuflada luta de classes. O mais emblemático dos sintomas a recordar é termos sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão. E não se pode deixar de recordar em quais condições a exploração da mão de obra escrava, de negros e negras importados da África, teve consumada sua abolição, após mais de 300 anos. Deixados ao léu.

Desde o osso do eixo da história brasileira, constata-se o sentimento antipopular das elites e das velhas camadas de oligarquias provenientes da classe média. Sim, vem desde o período colonial e com esse mesmo espírito chegaram ao século XXI. Sem temer o excesso, pode-se afirmar que a indisposição para a solidariedade só piorou diante do avanço do individualismo, onde a cultura da indiferença é regra e, por que não enfatizar, ninguém se sente verdadeiramente responsável por nada. Tendemos a transferir para outros a solução de nossos problemas; no caso do governo, que aja como um Mecenas a nos bancar a sopa e a cuia.

Em meio à controversa conjuntura de “marchadeiros e paneleiros”, “coxinhas e mortadelas” da atualidade, o suposto desejo de assumir as rédeas da sociedade revela, nitidamente – como delineado no golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2015 – o propósito de recapturar o Estado para recolocá-lo a seu serviço, no berço esplêndido das suas recompensas e malversações.

Mesmo com o golpe militar que levou à proclamação da República, o Brasil continuou a ter um sistema político regido por uma elite econômica. As restrições à participação eleitoral, até a Revolução de 1930, mostram que o “direito ao voto” alcançava não mais que percentuais pífios de “homens de bem”, algo entre 2% e 5% da população. Após a restauração da democracia em 1945, a proporção subiu, mas permaneceria em cerca de 15%, já computados os votos do eleitorado feminino. O cenário sobre o qual se consolida o golpe de 1964 – há 53 anos – era composto por apenas um terço da população adulta com representação política ou, diga-se, dois terços sem nenhuma representatividade.

Por todo o século XX, a normalidade democrática no país foi exceção. A sociedade brasileira foi submetida a duas longas ditaduras e sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado, considerando os bem e os malsucedidos. Oficiais das Três Armas não titubearam em deixar os quartéis para derrubar governos eleitos ou impedir a posse do vencedor, movidos por apelos de civis inconformados com a democracia, como revisto nos dois últimos anos. Não é difícil concluir o quanto o golpismo está inscrito nos genes da cultura política brasileira.

Aqui, a tendência antidemocrática é alimentada, sobretudo, pela aversão à presença do povo no centro da vida política nacional. Continuamos no limite tênue dos quadrados da Casa Grande e da Senzala, oh Gilberto Freire. Uma das características mais destacáveis na elite e legitimada pela classe média é o culto à excepcionalidade, ou pretensa meritocracia, a exigir líderes “notáveis” e a excluir o cidadão comum como inapto para ocupar “cargos elevados”, em particular a Presidência da República. Lula da Silva é o mais reconhecido exemplo.

Se, afinal, é sutilmente visível o quanto nossos problemas envolvem graves e históricas desigualdades social e econômica, diria mesmo, como um paradoxo, que são culturais antes de serem políticos, até quando as mazelas políticas vão se sobrepor às narrativas culturais no Brasil de tanta e fascinante diversidade?

Sim, mas, do mesmo modo, até quando a cultura servirá apenas como artifício de sedução a embalar o sono da pachorrenta rotina?
A Arte é subversiva por nos tirar do imobilismo. A Cultura é revolucionária, como ente social agitado contra a passividade, que serve sempre àqueles que defendem a perpetuação do status quo.

A nossa escolha para a substituição do poder deve ser um exercício de identificação com propostas que prometem mais do que o emprego, mais que a subsistência, a qualidade de vida. E hoje, mais do que nunca, de modo constante, precisamos cobrar a dívida cultural – contra a tendência de consumidores passivos, tendo como objetivo ser os anunciadores do futuro. Só então a cultura, superando o divórcio não pactuado – quiçá possa se reconciliar com a política e vice-versa.

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Fórum do Pensamento Crítico

Foto: Albenísio FonsecafotoMesa do Fórum do Pensamento Crítico, no Conselho Estadual de Cultura, que abordou o tema Cidades e Festas

Fórum do Pensamento Crítico

A estratégia eleitoral da cultura 

Albenísio Fonseca

O “Desocupa Salvador” foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira de fevereiro, no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento” que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital.

Menos como artigo, mas enquanto relato crítico, vimos o evento ser aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, a justificar a iniciativa sob o propósito de que a “cultura seja inserida na agenda dos partidos”, neste ano eleitoral. Rubin salientaria, ainda, que o tema incluía “as cidades” por conta do “expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial (no século XVIII) e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX.

Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA.

 

Wlamira ilustrou sua fala com uma pintura de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu ao rei etíope Menelik II, homenageado pelo afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897, e nos fez contemplar a imagem do poderoso soberano que derrotara os italianos, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes.

“Menelik chegaria à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. A ótica da historiadora é a de que, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defende a lógica de que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”, e sugere “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano. Ele fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, senão politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e provocou o “papel cultural dos diretores de escolas”, sem relevar a crise educacional que atravessa as escolas públicas.

 

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, como o faz  nas  entrevistas que tem concedido, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”. Ao sugerir a “supressão do carro de apoio” no desfile dos blocos, para economia de espaço na avenida”, toca numa espécie de estande ou gôndola móvel, frenesi para sub personalidades e balcão de cervejaria.

Miguez deu o tom da inserção na campanha eleitoral ao criticar pré-candidatos à Prefeitura de Salvador, pelo “senso comum das opiniões emitidas”, ou seja, por não entenderem nada de Carnaval, e cravou a máxima: “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

 

Já Ordep Serra concentrou-se na Salvador em plena “desregulamentação urbana” e no quanto o Carnaval tende a “naturalizar essa situação”. Ao mencionar a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie”, com as “desigualdades sociais transbordando pelas festas”.

 

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; importância da festa de Itapuã, mobilidade urbana e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval. Planejado para ocorrer durante todo o ano como uma estratégia da cultura para a campanha eleitoral, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

 

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Albenísio Fonseca é jornalista

Futebol e revolução

Futebol, um jogo revolucionário

Albenísio Fonseca

O único delírio coletivo permitido no Brasil, além do Carnaval, é a conquista da Copa do Mundo. Espetáculo coletivo, o futebol torna-se ritualístico na medida em que identifica os espectadores com o drama que se desenrola em campo. Os jogadores são como personagens de teatro com os quais nos identificamos numa relação ritualística (espetacular) em que o campo se converte num grande teatro de arena. Visto de forma simbólica, emocional e arquetípica, o futebol é uma confrontação de opostos durante a qual inúmeras emoções são elaboradas, soltas, exercidas e domesticadas.

As origens do futebol perdem-se nos subterrâneos da História. Iniciado na Inglaterra, provavelmente a partir do harpastum, jogo de bola com as mãos trazido pelos romanos da Grécia, há também a hipótese de que tenha-se originado do costume primitivo de chutar a cabeça dos inimigos para comemorar vitórias. Existe ainda a informação do futebol jogado nas terças-feiras de Carnaval em Chester, cidade inglesa fundada pelos romanos.

É possível relacionar pelo menos quatro razões para afirmar o futebol como um jogo revolucionário. Por sua associação ao Carnaval, festa visceralmente ligada à liberação das emoções e instintos. Por ser jogado com os pés, numa contrapartida para com as atividades sociais organizadas e praticadas sob o controle das mãos. Por ser um esporte coletivo e, desse modo, contrariar os esportes individualistas das elites. E, ainda, por dirigir as emoções do povo para uma disputa que acaba bem, ao contrário dos torneios que terminavam com a morte de um dos contendores.

O futebol registra episódios surpreendentes, como o de uma guerra entre a Inglaterra e a Escócia, em 1297, acabar desmoralizada porque os soldados de Lancashire, tradicionais inimigos dos escoceses, desobedeceram a seus comandantes e preferirem disputar sua rivalidade no futebol, ao invés de guerrear.

A face revolucionária do futebol diante do padrão patriarcal acabou por gerar sua repressão legal na Inglaterra, por razões militares de Estado, a partir do século 14, e motivo de ampla legislação proibitiva até o século 16. Mas o esporte floresceria e se difundiria por todas as culturas pelas mais diversas vias. Ao nos identificarmos com os jogadores nesse ritual dramático, sentimos que eles realizam por nós proezas físicas e psíquicas, que nos gratificam profundamente. Se as proezas físicas são maravilhosas de ver, as psíquicas são partilhadas e usufruídas. A imprevisibilidade do jogo faz com que toda sorte de emoções surja entre os heróis e o gol (jogadores de futebol são heróis do povo e o goleador o maior deles).

A ação dramática transcorrida nos 90 minutos é um símbolo transfigurado do processo de luta pela vida para atingir nossas metas. Como o gol adversário (a meta) é defendido por um time igual ao nosso, para atingi-lo temos que nos defrontar com emoções intensas e atravessá-las pelo drible, pelo controle da bola, intuição, planejamento, ação conjunta,malícia, velocidade, tudo enfim que há de humano contra tudo humanamente igual.

O futebol lida com emoções da maior importância, como a agressividade, a competição, amizade, rivalidade, inveja, orgulho, depressão, humilhação, fingimento e traição, entre tantos outros. O exercício da ética no futebol é tão evoluído que trouxe até mesmo a codificação de não se marcar uma falta que beneficie o infrator. Também a regra do impedimento, que proíbe receber por trás da defesa, delimitando física, espacial e dramaticamente situações de lealdade no confronto direto, e de traição no atacar por trás.

As emoções elaboradas pelos jogadores correspondem, simultaneamente, às vividas pelos torcedores. Um time que se lança ao ataque ativa a coragem e a ambição do torcedor. As tentativas de invasão de área e realização do gol podem, de logo, ser invertidas num contra-ataque.

No mais, devemos acompanhar os jogos de campeonatos, várzeas ou nas Copas do Mundo, com um esforço de consciência para compreender seus símbolos e exercê-los, não só no âmbito das suas arenas, mas em todas as instâncias da política e da cultura.

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Albenísio Fonseca é jornalista

Ocupação artística

“Instalações, performances, fotos, quadros, vídeos, coquetel. A iniciativa do artista plástico Leonel Mattos, de promover uma ocupação artística, por um dia, na Feira de São Joaquim, extrapolou as expectativas e gerou uma manifestação histórica (em parte, até histérica) de artistas baianos, contemporâneos ou não e artistas de outros Estados, a exemplo de Adriano de Aquino, Ivald Granato e Patricia Bowles. A arte exposta em meio à feira. Todo povo tem de ir aonde a arte está, ou vice-versa…” – Albenísio Fonseca

Foto de Albenísio Fonseca

Foto de Albenísio Fonseca

Foto de Albenísio Fonseca

“Dezenas de artistas visuais, sob a curadoria de Leonel Mattos fizeram suas intervenções em meio aos tabuleiros dos produtos vendidos naquele espaço, que vão de hortifrutigrangeiros a artigos religiosos. “Convidei vários artistas para esta intervenção em um espaço nada convencional, para que a arte de cada um falasse por si só. Eu acho que espaços específicos convencionais acabam imprimindo à arte, um status duvidoso muitas vezes imposto pelos críticos e intelectuais. Arte não é para se entender, é para se sentir” filosofa o curador e autor da idéia da coletiva, que apresentou uma instalação com um personagem enjaulado.” – site de Lícia Fábio

Obra de Leonel Mattos – BA

Foto da obra de Leonel Mattos, feita por Salvador Up Date
Leonel Mattos também fez uma homenagem a Cosme e Damião, atraves de uma instalação composta por cinco mil quiabos.
Num espaço urbano repleto de informações, como é a Feira de São Joaquim, a exposição efêmera não alterou a dinâmica da rotina do comércio local e quase todas as obras se harmonizaram de forma plena com o ambiente, cada um brilhando à sua maneira.

O Sultão e os Repolhos

Obra de Patricia Rosa – BA

Obra de Antonio Carlos Rebouças – BA

Obra de Dinho Vital e Ricardo Prado

Obra de Adriano de Aquino – RJ

Obra de Ivald Granato – SP

Obra de Fernando Carpaneda

Obra de Lia Magalhães
“Uma interferência que chamou bastante atenção de feirantes e consumidores foi a “TV Bode”, do artista Daniel Lisboa, que buscou inspiração nas obras de Nam June Paik, o sul coreano considerado pai da videoarte, para protestar contra a TV Mundo Cão que tanto sucesso faz na programação  local das emissoras baianas, “que exploram a violência e a fraqueza humana para faturar ibope”, diz Daniel.”- site de Licia Fábio

Já o artista Bel Borba utilizou sua conhecida imaginação fértil e objetos encontrados na feira para criar “A Carne é Fraca”, uma instalação com argila, cabeças e patas de porcos para dar forma aos seus humanóides. Elementos de expressão, que provocassem sensações e questionamentos sobre a relação homens, animais.

PERFORMANCE: VENDE-SE UM ARTISTA A

PREÇO DE BANANA!


ARTISTAS PERFORMERS:

PAULLA BOMFIM, PAULLA MAGNO,

ANTONIE E EDUARDO SILVA.

Na exposição multimídia, que misturou pinturas, esculturas, instalações, fotografias, vídeos e performances, houve espaço também para as criações do estilista Di Paula, que aproveitou o espaço para elaborar um ensaio de moda dentro do contexto da coletiva.

A ocupação artística na Feira de São Joaquim acabou por se transformar numa mobilização estética e política, com sua legítima crítica às instituições de arte tradicionais, evidenciando o que diz o poeta: “todo artista tem que ir, aonde o povo está”. Ou seria o contrário: Todo povo deve ir onde estiver o artista ?

Mega exposição

Negroamor

Entre o deslumbramento e a

estupefação

ALBENÍSIO FONSECA


Guerrinha, em busca do foco

A intervenção com imagens de uma intensa, senão pretensa, africanidade realizada por Guerrinha, o fotógrafo e publishman Sérgio Garcia Guerra, por quase toda a Soterópolis, com habitantes da Bahia e Angola, candidata ao Guiness Book como maior exposição fotográfica a céu aberto do mundo, mantém uma tradição de excelentes instalações para o coletivo urbano de Salvador em meio à complexidade da vida cotidiana.

Com a mostra, a cidade deixa de ser ateliê, vira galeria. Entre o deslumbramento e a estupefação, cidadãos e transeuntes, os públicos da mostra, talvez necessitem de mapas para percorrer a cartografia de fotos lambe-lambe das gentes desses territórios de iguais, em poses aristocráticas, sem a burocracia ou o flagrante do dia-a-dia. Vale a façanha ou o fardo das suas histórias, como diríamos das fotos de Pierre Verger ou pinturas de um Débret. Longe daqui, aqui mesmo: afro-baianos ostentando seus risos ou um mítico jeito descontraído de ser.

Ao recusar uma troca, o acréscimo da palavra, o efeito produzido pela mostra fotográfica decora mais que tensiona, frente à tentativa de descolarmos ou tornarmos mais inteligente a retina. Mantém-se sem retoques o status quo estético, para a contemplatividade dócil de um público transeunte numeroso e veloz.

ALFORRIA – Quantas mil imagens sem uma palavra, um conceito? Não seria a lenda, mas a legenda, o que falta no excesso simbólico de 1.500 fotos. Uma economia que requer outras mídias como suporte para traduzir-se. Dizer o dado, falar a cidadania muda.Em Salvador Negroamor, nome da exposição, a câmera clara do fotógrafo retrata uma positividade asséptica ao captar as imagens, espelhados photoshops de personas posadas como em estúdios, naturalizando contradições sociais em lugar de aguçá-las.

Sem a inversão da câmera escura, ganhamos uma alforria nas fotos de Guerrinha. Somos livres, anônimos parecem gritar como estátuas amordaçadas ou esfinges da contemporaneidade. Melhor a esfinge que o olhar petrificante da medusa ideológica que ainda paira sobre nós. Todos os adjetivos para a exposição qualificam apenas o caráter megalomaníaco da mostra, em seus outdoors, banners, backlights e front-ligths, CD e portal, sem temer o olhar que divide, esmiúça, relaciona, contempla numa velocidade de urbanóides.

Nos anos 70, o poeta Júlio César Lobo criou um poema-processo com 24 quadros para fotos 3×4. Identifique-se. Ali, mais que crítica, a vida sob um regime opressor. A profusão de fotos de Sérgio Guerra guarda similaridade à campanha do Banco com Nomes Pessoais, cujo primeiro presidente foi um negro. Negroamor, diria a lúbrica Carlota Joaquina.

PERSONAS E FETICHES – Maior cidade do mundo habitada por afrodescendentes fora do coração da Mama África, Salvador tem vivido megaintervenções artísticas, como as centenas de tubos de polietileno, lançados por Washington Santana, cheios do ar de 1987, a flutuar nas águas do Dique do Tororó, e que até produziam mais que uma estética, uma erótica. Ele que, depois, criaria esculturas de Cristos monumentais com o lixo coletado na usina de compostagem de Vila Leopoldina, reciclado ou transmutado em arte por praças, na São Paulo de 1991, para levar às lágrimas a prefeita Luiza Erundina.

A estética dos “orelhões” à baiana também erigiram um novo olhar, viabilizando a cidade como pólo emissor. O amordaçamento de estátuas, por este escriba, numa reação ao silêncio cultural predominante, em 1977 e 1985. Os mosaicos de Bel Borba, como ímãs, no final dos 90; a gigantografia dos monumentos de Mário Cravo Jr.; e mesmo os grafites/murais do grupo universitário BaldeAção, são alguns exemplos. Signos há muitos que se precise analisar nos detalhes e na concepção da megaexposição, vista como “fotos da negritude baiana”. Como se nos a replicar mais belos, transitamos entre personas e fetiches.

Há uma “neutralidade atuante”. Narcisos aos quais nada falta. Tantas fotos, a fruição rapta o olhar, quase o escraviza numa estranha autonomia: se a estatuária grega não individualiza, o que seria externo ao belo? Até porque nenhuma obra de arte é sobre algo, mas alguma coisa em si. O espelho, as fotos, simula telas que a mão (o olhar) do artista concretiza, como diríamos de um sonho em visibilidade máxima.

Longe da senzala, no coração da cidade grande, qual Narciso (ou seria Macunaíma?) – os baianos e outros unos – vença a sedução das imagens lacustres de mares, penínsulas, Recôncavo e Dique entre closes, contrées e contreplongées dessa antropologia atualizada do homem genérico, o da arte, síntese de muitos rostos, nesta nova caverna platônica, a paisagem urbana.

Afinal, o que significa voltar o olhar para as origens, senão uma nostalgia da unidade ou da ancestralidade perdida? Como Vênus mutilada, o que vemos nos basta? Não, porque milhares de fotos continuarão a ser apenas um fragmento da história. Sim, a pluralidade (mais que a singularidade) do gesto do artista, desde há muito, sobrepuja sua produção artística, isto é, as concepções tradicionais de beleza. Antes, quando o atavismo batia, o menino corria a tocar o tambor. Agora, use a câmera fotográfica.

Violência na TV

foto

Violência na TV

Albenísio Fonseca

O “il mondo cane” das metrópoles pode servir ao sensacionalismo barato e perverso que motiva uma audiência. Mas há um limite de tolerância à falta de ética e respeito a princípios consagrados à pessoa e ao exercício da profissão, que recusam como jornalismo a abordagem na forma de interrogatório torturante, utilizado por supostos repórteres, nos programas de tevês sobre a violência, como método de intimidação ao direito de ampla gama de miseráveis – oh! Victor Hugo.

Programas que atentam, com a crueldade dos seus fatos, para o bem estar social, e sob a complacência permissiva das autoridades policiais e jurídicas. “Comunicadores”, radialistas (?),  a usar do livre direito de expressão da nossa tênue democracia, para replicar a violência seriada; o escabroso, como sedução. A adotar métodos coercitivos, sentenciando, antes de qualquer veredito.

As emissoras – concessão pública, diga-se – a dispor em suas grades de programação de tribunais de inquisição da correição pública, a espetacularizar a violência do drama contemporâneo. Cuja antípoda, suposta justificativa, pasme, é, evidentemente, a moral social e os bons costumes.  E eis que se consagram à luz do Dia.  

“Tem jornal popular que
nunca se espreme porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado,
já vem pronto e tabelado,
é somente folhear, e usar”

Dos anos 60 da Tropicália, de Tom Zé, desenvolvemos (!) do ponto de vista mesmo de uma História da Imprensa – oh! Gutemberg –  para uma ação de mídia televisiva em escala de alcance massivo extraordinária. Mas, para que? Para atender ao gosto popular mais relés? À sede pela barbárie que inunda o cotidiano? O baixo instinto da platéia, a ser saciado pelo dantesco? O estupor tornado em prazer? A desgraça como deleite? Filmes de violência requerem horários de exibição. O real, em sua face mais cruel, psiquiátrica, digamos, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente, não? 

Ser visto é tão humano quanto ver, dirias – oh! Dante – no inferno da vida banalizada. A Justiça titubeia. Restringe-se à ação pontual. Convertido numa espécie de horário nobre do terror, os programas devem, ao menos, sair do meio-dia. Ampla programação cultural no Brasil só é exibida em altas horas, inacessíveis ao grande público, incompatíveis com um compromisso público pela cultura, pelo avanço das “tecnologias” da consciência cidadã.

O “fenômeno” desses programas não é apenas baiano. No balanço geral, temos na mira que falta ao País um projeto de Nação, e desde há muito. Adepto da democracia, da qualidade, do bom senso e do respeito ao direito e à dignidade do ser humano, sou totalmente avesso à censura, ao totalitarismo, à violência e à criminalidade – oh! Newton. Defender uma tevê comprometida com reais valores civilizatórios nos faz clamar que os procuradores convençam mesmo aos juízes – sob o espírito das leis – oh! Montesquieu – a passarem o rodo nesse tipo de pretenso entretenimento.

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Albenísio Fonseca, jornalista