Afoxés – Anunciadores do futuro

fotoAfoxé Filhos de Gandhy – foto histórica com estivadores do porto de Salvador

Afoxés, a estratégia do

candomblé no Carnaval

Albenísio Fonseca

Enquanto escolas de samba cariocas como a Portela e a Imperatriz Leopoldinense, ou a paulista Mocidade Alegre, consolidam espaço na mídia tendo Salvador (a mítica “cidade da Bahia”), a literatura de Jorge Amado e as festas populares como temas, 23 afoxés, em Salvador – com proposições lúdicas e sócio-educativas similares à das agremiações carnavalescas do Rio e São Paulo – enfrentam dificuldades para botar o bloco na rua.

A singularidade dessa manifestação cultural, originada na Bahia e consolidada no estado como patrimônio imaterial desde novembro de 2010, não surgiu como mero entretenimento. Trata-se de uma expressiva estratégia da comunidade negra para escapar à intolerância religiosa da época e professar (tanto quanto preservar) o candomblé.

A reação partiu de um grupo de estivadores do porto de Salvador, reconhecidos como ogans (personalidades que se destacam na sociedade iorubá). Decididos a buscar alternativa para brincar o Carnaval, consultaram um babalorixá. Conta-se que este teria jogado os búzios (Ifá) e a mensagem advinda foi a de que deveriam sempre fazer oferendas a Exu (mensageiro dos orixás) e que o agrupamento deveria se chamar Afoxé (“que o futuro se cumpra”).

Criminalizado pela igreja e pelo estado, o candomblé era proibido de ser praticado. Ou seja, como não podiam proceder em casa os rituais aos orixás, inquices e voduns, com seus toques, cantos, oferendas e dialetos, adotaram o momento do Entrudo (como então era denominado o Carnaval) e o território das ruas em festa para expressão da fé e, convenhamos, surpreendente exercício de cidadania.

O afoxé Embaixada da África foi o primeiro cortejo negro a desfilar pelas ruas da Bahia, em 1895, em pena República, mas, sem duvida, ainda bem próximo dos legados do regime imperial e seu sistema escravocrata. Desfilou utilizando indumentária originária da África. No ano seguinte, surgiria o Pândegos da África, depois o Folia Africana. Logo, a Baixa dos Sapateiros se converteria em sua principal passarela.

Em suma, os afoxés têm raízes nas congadas e folguedos das senzalas, surgem como táticas de resistência do candomblé, de defesa da raça negra, e se expandem após a Abolição. Saídos das favelas e quartos de criados, já em 1920 o Congos d’África se configuraria em “colossal candomblé a perambular pelas ruas”, na definição de Nina Rodrigues.

Legado de três gerações, o Congos d’África fora criado pelo velho Reginaldo, o Dodô, na área do Dique do Tororó – um território sagrado para o “povo de santo”. Ressurge sob nova denominação, Filhos do Congo, fotografado por Pierre Verger, em 1948, e resgatado por Ednaldo Santana, o Nadinho, em 1979, no que se poderia considerá-lo o mais antigo dos afoxés.

Mas a manifestação não se restringe ao Carnaval de Salvador. Há afoxés em municípios baianos (Feira de Santana, Alagoinhas e outros) e em capitais do país, oito dos quais no Rio de Janeiro, quatro em São Paulo, cinco em Sergipe, dois no Rio Grande do Sul, três em Santa Catarina e 30 em Recife, num total de 148 agremiações em todo o Brasil, a seguir o ritmo ijexá.

A formação original dos afoxés envolvia arautos e fanfarra que anunciavam a passagem do préstito com instrumentos como trombetas, trompetes e clarins; guarda branca, rei, rainha, babalotin, estandarte (geralmente bordado a fios de ouro), guarda de honra, charanga (músicos que tocavam atabaques, agogôs, xequerês e afoxês).

A assinalar diferenças estão as indumentárias (abadás), cores (vinculadas aos respectivos orixás), cantigas em iorubá, além dos instrumentos de percussão. O ritmo e a dança na rua reproduzem a dos terreiros, bem como a melodia entoada. As músicas, agora selecionadas em concorridos festivais, são puxadas pelo cantor do grupo e repetidas por todos, inclusive os instrumentistas.

Os componentes, normalmente vinculados aos terreiros de candomblé, têm consciência de grupo, valores e hábitos que os distinguem de qualquer outra entidade no Carnaval. Para quem não conhece o candomblé e seus cânticos, a sensação é de que seja apenas um bloco carnavalesco diferente, mas trata-se de uma expressão simbólica a reverenciar ancestralidades pelas ruas. Segundo pesquisa e publicação patrocinada pelo IPAC – Desfile de Afoxés – em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura para desfilar, o que lhes fora negado gerando intenso debate na imprensa. Em 1906, foram publicadas medidas para regulamentar o Carnaval no jornal “A Bahia” e, entre estas, uma proibição à “exhibição de clubs de costumes africanos, candomblés”.

Filhos de Gandhy – o mais famoso e com maior contingente, fundado em 1949 – expressa uma raiz indiana (asiática), não propriamente africana como os demais, sob o lema da paz professada pelo Mahatma Gandhi, também é originário de estivadores. Seus primeiros “lençóis brancos” teriam sido oferecidos por prostitutas do cais. Os dirigentes do afoxé têm sido alvos de críticas por não participarem de atividades em defesa de interesses da raça negra, e por não promover atividades culturais ou educativas, como assegura Ednaldo Sanana, presidente da Associação Baiana e da Federação Brasileira dessas agremiações.

Mantenedores de verdadeiros pontos de cultura, os afoxés aliam integração comunitária à educação e possibilitam aulas de dança e música, elementos constitutivos da cultura negra, considerando, ainda, a íntima relação entre corpo e ritmo como fator estruturante para diversos níveis de sociabilidade. E, assim, desejar que os anunciadores do futuro nos toquem cada vez mais próximo.

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Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

O artesanato e a razão da máquina

foto

Albenísio Fonseca

Fazer alguma coisa é conhecer a fórmula mágica que permitiu inventá-la ou fazê-la aparecer de maneira “espontânea”. Por essa razão, o artesão sempre foi visto com respeito ou temor, já que é detentor de um segredo, pois todos os ofícios comportam uma iniciação que se transmite por meio de uma tradição oculta. Consta que Dédalus, arquiteto e artesão de renome, possuía movimentada oficina em Atenas, onde ensinava seu ofício a vários aprendizes. Um deles, seu sobrinho Talo, suplantou-o em criatividade a ponto de inventar o serrote, o torno de oleiro e o compasso.

Enciumado, Dédalo assassinou-o e foi condenado ao degredo. O caráter mágico do artesão, contudo, foi substituído, contemporaneamente, por uma linguagem e um saber-fazer tão estranho aos não-iniciados que cada um desses grupos continua a manter, para os demais, sua aparência de mistério. Na luta pela sobrevivência, o ser humano (ao longo do decurso histórico) teve que executar atividades penosas e que requeriam grande dose de esforço físico.

Talo, sobrinho de Dédalo, criou instrumentos cuja finalidade era tornar menos árduo o trabalho e que, inicialmente feitos de ferro, acabaram por receber a designação genérica de ferramentas. A utilização dessas ferramentas, uma extensão das mãos, exige apenas habilidade e um mínimo de adestramento. É por isso que a passagem da ferramenta para a máquina significa também rejeição a todo um caráter litúrgico do trabalho.

HISTÓRIA, HÁ 6 MIL ANOS

A inexistência ou mesmo a precariedade de instrumentos auxiliares é que certamente provocou a necessidade da domesticação de animais, e da submissão de outros homens pela força, obrigando-os a tarefas exaustivas de que se eximiam os dominadores. A limitação dessa atividade vai decorrer tanto por problemas de natureza ética quanto pela dificuldade de manter-se o controle sobre contingentes escravizados, o que não deixou, contudo, de gerar derivados, do qual a máquina é a expressão moderna.

A história do artesanato tem início com a própria história do homem, pois a necessidade de se produzir bens e utilidades de uso rotineiro, e até mesmo adornos, expressou a capacidade criativa e produtiva como forma de trabalho. Os primeiros artesãos surgiram no período neolítico (6.000 a.C) quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica e a tecer fibras animais e vegetais.

No Brasil, o artesanato também surgiu neste período. Os índios foram os mais antigos artesãos. Eles utilizavam a arte da pintura usando pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica, sem esquecer a arte plumária como os cocares, tangas e outras peças de vestuário feitos com penas e plumas de aves.

O artesanato pode ser erudito, popular e folclórico, podendo ser manifestado de várias formas como, nas cerâmicas utilitárias, funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais (sedenho), fabrico de farinha de mandioca, monjolo de pé de água, engenhocas, instrumentos de música, tintura popular. E também encontram-se nas pinturas e desenhos (primitivos), esculturas, trabalhos em madeiras, pedra guaraná, cera, miolo de pão, massa de açúcar, bijuteria, renda, filé, crochê, papel recortado para enfeite, e tantas mais.

O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo e garante o sustento de muitas famílias e comunidades. O artesanato faz parte do folclore e revela usos, costumes, tradições e características de cada região.

A produção artesanal, por si só, hoje, é uma questão complexa. Entre alguns fatores de ordem tecnológica, que o artesão (via de regra) parece desconhecer ou não aplicar no desempenho da sua atividade, podem ser arroladas as técnicas de definição da temática, da criação (considerando-se os fatores históricos e culturais), escolha de matéria-prima adequada, conhecimentos e domínio da técnica escolhida e conhecimento da técnica da fase de acabamento.

A carência de entidades de classe organizadas e conhecedoras dos valores e direitos da categoria, e que ao mesmo tempo disponham de recursos técnicos para facilitar o desempenho do desenvolvimento das atividades, seja ao nível sociológico, tecnológico, político, econômico, comercial ou jurídico – tem sido um entrave ao desenvolvimento do artesão.

TÉCNICA DERIVA DE ARTE

Técnica, é bom lembrar, deriva de “Techne”, palavra grega que significa “arte”, sentido que menos possui no entendimento atual. O certo, no entanto, é que a técnica existe desde que o homem conseguiu fabricar artefatos, ainda que rudimentares. Inicialmente, essas técnicas eram ao mesmo tempo mistérios (os “segredos do ofício”), situando o homem arcaico num universo saturado de sacralidade. Hoje, reina ainda, bem mais conceitual que arquetipicamente, uma grande confusão entre teoria, ciência e técnica, compreensível na medida em que o papel da ciência é o de fundamentar a civilização tecnológica.

Também proveniente do grego, “theoria” no entendimento original correspondia a contemplação. A separação entre teoria e prática era desconhecida no significado original. Modernamente, contudo, converteu-se em instrumento ideológico. A ciência, que não é filosofia, embora tenha se desenvolvido a partir do horizonte aberto por esta, é muito mais um ardil teórico. E, como todo ardil, é uma aparelhagem de captura.

Com isso, a própria ciência se torna tecnologia, ou seja, instrumento de apresamento da realidade. A razão da máquina – que não é uma soma de ferramentas ou uma ferramenta muito rápida – é a submissão da natureza. A distinção é clara: a ferramenta serve ao trabalho humano, que a cria em função de suas necessidades, enquanto que a máquina projeta o trabalho humano, e dele se serve.

Para o homem grego, a natureza tinha que ser compreendida e assimilada, nunca submetida. O cálculo utilitário, no entanto, converteu a produção e o consumo no próprio sentido da vida. Toda essa discussão é secular.

O abandono da herança clássica pela visão moderna pode ser resumido na afirmação, quase um vaticínio, de Charles Chaplin: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Futebol e revolução

Futebol, um jogo revolucionário

Albenísio Fonseca

O único delírio coletivo permitido no Brasil, além do Carnaval, é a conquista da Copa do Mundo. Espetáculo coletivo, o futebol torna-se ritualístico na medida em que identifica os espectadores com o drama que se desenrola em campo. Os jogadores são como personagens de teatro com os quais nos identificamos numa relação ritualística (espetacular) em que o campo se converte num grande teatro de arena. Visto de forma simbólica, emocional e arquetípica, o futebol é uma confrontação de opostos durante a qual inúmeras emoções são elaboradas, soltas, exercidas e domesticadas.

As origens do futebol perdem-se nos subterrâneos da História. Iniciado na Inglaterra, provavelmente a partir do harpastum, jogo de bola com as mãos trazido pelos romanos da Grécia, há também a hipótese de que tenha-se originado do costume primitivo de chutar a cabeça dos inimigos para comemorar vitórias. Existe ainda a informação do futebol jogado nas terças-feiras de Carnaval em Chester, cidade inglesa fundada pelos romanos.

É possível relacionar pelo menos quatro razões para afirmar o futebol como um jogo revolucionário. Por sua associação ao Carnaval, festa visceralmente ligada à liberação das emoções e instintos. Por ser jogado com os pés, numa contrapartida para com as atividades sociais organizadas e praticadas sob o controle das mãos. Por ser um esporte coletivo e, desse modo, contrariar os esportes individualistas das elites. E, ainda, por dirigir as emoções do povo para uma disputa que acaba bem, ao contrário dos torneios que terminavam com a morte de um dos contendores.

O futebol registra episódios surpreendentes, como o de uma guerra entre a Inglaterra e a Escócia, em 1297, acabar desmoralizada porque os soldados de Lancashire, tradicionais inimigos dos escoceses, desobedeceram a seus comandantes e preferirem disputar sua rivalidade no futebol, ao invés de guerrear.

A face revolucionária do futebol diante do padrão patriarcal acabou por gerar sua repressão legal na Inglaterra, por razões militares de Estado, a partir do século 14, e motivo de ampla legislação proibitiva até o século 16. Mas o esporte floresceria e se difundiria por todas as culturas pelas mais diversas vias. Ao nos identificarmos com os jogadores nesse ritual dramático, sentimos que eles realizam por nós proezas físicas e psíquicas, que nos gratificam profundamente. Se as proezas físicas são maravilhosas de ver, as psíquicas são partilhadas e usufruídas. A imprevisibilidade do jogo faz com que toda sorte de emoções surja entre os heróis e o gol (jogadores de futebol são heróis do povo e o goleador o maior deles).

“A ação dramática transcorrida nos 90 minutos é um símbolo transfigurado do processo de luta pela vida para atingir nossas metas. Como o gol adversário (a meta) é defendido por um time igual ao nosso, para atingi-lo temos que nos defrontar com emoções intensas e atravessá-las pelo drible, pelo controle da bola, intuição, planejamento, ação conjunta,malícia, velocidade, tudo enfim que há de humano contra tudo humanamente igual”. Quem discorre é o analista junguiano Carlos Byngton em Nos conflitos simbólicos da alma coletiva, in “Em campo, futebol e cultura”, págs. 28 a 47; Ed. SP Cultura – Agosto de 1982.

O futebol lida com emoções da maior importância, como a agressividade, a competição, amizade, rivalidade, inveja, orgulho, depressão, humilhação, fingimento e traição, entre tantos outros. O exercício da ética no futebol é tão evoluído que trouxe até mesmo a codificação de não se marcar uma falta que beneficie o infrator. Também a regra do impedimento, que proíbe receber por trás da defesa, delimitando física, espacial e dramaticamente situações de lealdade no confronto direto, e de traição no atacar por trás.

As emoções elaboradas pelos jogadores correspondem, simultaneamente, às vividas pelos torcedores. Um time que se lança ao ataque ativa a coragem e a ambição do torcedor. As tentativas de invasão de área e realização do gol podem, de logo, ser invertidas num contra-ataque.

No mais, devemos acompanhar os jogos de campeonatos, várzeas ou nas Copas do Mundo, com um esforço de consciência para compreender seus símbolos e exercê-los, não só no âmbito das suas arenas, mas em todas as instâncias da política e da cultura.

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Albenísio Fonseca é jornalista

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