Apagão analógico

 

ERA DIGITAL

“Apagão analógico”

começa em novembro de 2015

 Albenísio Fonseca

Após países como Estados Unidos, alguns da Europa e o Japão, o Brasil inicia em 2015 o “apagão das transmissões para televisores analógicos”. O desligamento inicial, conforme cronograma do Ministério das Comunicações – MiniCom e da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, prevê a realização de projeto piloto na cidade de Rio Verde, interior de Goiás, em 29 de novembro do próximo ano.

A migração total para o sinal digital tem à frente um horizonte que se estende até 2018. A segunda cidade a contemplar o fim do sinal analógico, em 2016, é Brasília, dia 3 de abril.

Em São Paulo, maior praça do País, o sinal digital passa a predominar a partir de 15 de maio. Dia 26 de junho, Belo Horizonte. Em 28 de agosto, Goiânia e, a 27 de novembro, o Rio de Janeiro.

O switch off (desligamento, em inglês) está previsto para 25 de junho em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Em 30 de julho, também de 2017, o “apagão” acontece em Salvador e cidades da Bahia como Camaçari, Dias d’Ávila, Itaparica, Jaguaripe, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Salinas da Margarida, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz. Na mesma data, em Recife e Fortaleza. Já em Manaus, Belém, São Luis, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju, somente a partir do segundo semestre de 2018. Apenas no final daquele ano o apagão atinge o interior do País. Veja aqui quando o apagão analógico acontece em seu município.

A migração tecnológica deveria ter começado antes da Copa do Mundo. O prazo foi estendido devido a pedidos das emissoras abertas para conclusão de infraestrutura. A prorrogação para 2015 enfrentou decisão de suspensão, pelo TCU, do leilão da faixa dos 700 megahertz (MHz) – utilizada pelas transmissões analógicas e já destinada à frequência da tecnologia de quarta geração (4G) do serviço de telefonia móvel. Atualmente, a 4G opera somente na faixa de 2,5 gigahertz, leiloada em 2012. Com isso, o cronograma foi alterado.

O leilão aconteceu agora em setembro. Das operadoras, apenas a OI não mostrou interesse. O governo previa conseguir R$ 8 bilhões com a venda pública para as conexões em 4G na faixa dos 700 MHz, mas arrecadou menos, R$ 5,851 bilhões – com um ágio médio de 0,66% em relação ao preço mínimo.

Os vencedores da licitação – Vivo, Tim e Claro – terão de arcar com os custos de remanejamento e outras questões, como filtros para impedir interferência de sinal que podem gerar a “tela preta” nas captações da TV aberta.

Ainda estão sendo concluídos estudos de recanalização para os estados do Sudeste, Distrito Federal e Goiás, área habitada por 41% dos brasileiros.

Somente depois serão efetuados em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os estudos de recanalização do Norte, Nordeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já estão, praticamente, finalizados.

Segundo o MiniCom, o objetivo é reduzir ao máximo a quantidade de cidades onde será preciso desligar o sinal analógico e liberar a faixa de 700 Mhz.  

A perspectiva é desligar apenas 630 pontos, o que deve afetar 1200 cidades. Há um estudo que aponta 724 cidades onde o sinal analógico precisa ser desligado.

O processo não se resume a números e datas e promete ser complicado para o governo, a indústria de radiodifusão e, evidentemente, para a população. Além da superação do conflito no espectro com a TV aberta, o próprio cronograma é outro dos motivos de preocupação por parte dos radiodifusores:

Eles veem uma “curva muito acentuada no final do projeto”, ao invés de uma distribuição mais equilibrada durante os quatro anos de implementação. “Parece que o problema mais difícil será deixado para o final, e nós estamos falando de um universo de municípios enorme e de população pequena”, salienta Davi Britto, membro do conselho deliberativo do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital-SBTVD.

Agora – após o leilão da faixa dos 700Mhz – e ainda segundo o cronograma oficial, deverá ser montada a Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV – EAD e o órgão responsável pela sua governança, o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV – Gired.

Conforme a Anatel, o EAD será o órgão que adquirirá e instalará os equipamentos de infraestrutura de radiodifusão para os canais de TV e RTV, além de garantir linha de crédito de R$ 3,6 bilhões para auxiliar na atualização da infraestrutura do sistema. 

O órgão também será responsável por garantir a instalação de filtros em locais com interferências e de conversores de sinal para parte da população. A pedido do governo, cerca de 15 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família terão direito a uma set-top box gratuita (equipamento de conversão do sinal analógico para digital).

Para os demais cidadãos/telespectadores, a compra dos sistemas deverá ser feita livremente no mercado. Lembrando, contudo, que a maioria dos aparelhos digitais já vem com conversor embutido e que não há necessidade de adquirir canais por assinatura para assistir à TV aberta.

Mas fique certo que aquela velha relação que 95% dos lares brasileiros mantêm com a televisão, aliás, como nossas vidas, já estão sendo transformadas, em “um passo gigantesco”, digo, novos olhar, áudio e comportamento, frente à frente com a revolução advinda com as Smart TVs digitais, conectadas e interativas.

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Leia, também, “TV digital, revolução na plataforma”,  em   https://albenisio.wordpress.com/2011/11/01/299/

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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

 

DTVi

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TV digital, revolução

na plataforma

 Albenísio Fonseca

A implantação da TV digital interativa no Brasil (e na América Latina) vem sendo restringida à ideia de que essa nova multiplataforma tecnológica envolve apenas alta definição na qualidade da imagem e do som – como tem sido vendida por atacado e no varejo. Aliás, há ênfase, também, na criação de serviços comerciais (ou t-commerce), contemplando “novidades” que incrementarão lucros a iniciativas, antes restritas aos detentores das concessões de TV, em serviços interativos como previsão do tempo, resultados de jogos, pay-per-view.
Há disponibilidade, ainda, para t-banking (serviços bancários) e t-gov (interatividade entre governo e população nas áreas tributária, educacional, cultural e de serviços públicos), além da recepção e transmissão de e-mails.Mais influente meio de comunicação no Brasil, presente em 90% dos lares, a TV (analógica) sofrerá um imensurável impacto no modo passivo como nos comportamos ao assistir aos programas.
A TV digital, sob padrão nipo-brasileiro, decorre de adaptações promovidas, desde 1994, por pesquisadores em universidades brasileiras. Foi inaugurada em São Paulo, em 2.12.2007, pelo presidente Lula: “Uma TV gratuita e aberta tem que preservar a inclusão social”. Sim, a inclusão social agora propulsionada pela inclusão digital, e em caráter Hybridcast, combinando transmissão broadcast e aplicativos para Web das “TVs conectadas” (ou smart TVs) integrando e sincronizando conteúdos broadcast com os da banda larga.
A propósito, fabricantes de aparelhos de TV digital andam em polvorosa com a consulta pública promovida pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Indústria e Comércio sobre as regras de fabricação da TV digital, obrigando a instalação do Ginga, o middleware nacional, uma tecnologia em softwares, coração da interatividade.
Mas há, também, outro viés em cena, embora fora do foco do tele senso comum, com a recém sancionada Lei nº 12.485, que unifica as legislações das TVs por assinatura, as transmitidas através de sinais codificados por diferentes tecnologias, isto é: a cabo (TVC), por satélite (DTH) e em microondas (MMDS). A nova lei libera a participação do capital estrangeiro, limitando-o apenas nos sistemas a cabo (em 49%), sob a justificativa de “estímulo à competição e oferta de novas opções de conteúdo audiovisual de qualidade e melhores serviços, por menores preços”, sem maiores proteções ao capital e à indústria audiovisual nacional. E é claro que a TV paga compreende um mercado nada desprezível. Em 2010 o faturamento bruto contabilizou R$ 1,011 bi. Dados da Anatel sinalizam que em agosto de 2011 a TV paga já alcançava cerca de 11,6 milhões de domicílios, correspondentes a 38,3 milhões de brasileiros, ou 20% da população.
O certo é que somente com a expansão da cultura digital brasileira contaremos com novos agentes que, além de consumidores de informação, tornem-se geradores de conhecimento, alimentando o sistema e tornando-se parceiros do desenvolvimento intelectual e cultural do País. A TV digital interativa, já em 3D, é um novo e revolucionário universo, seja como suporte para convergência de outras mídias digitais – Internet e mídias móveis – seja na adoção da multiprogramação, onde hoje se transmite apenas uma de forma linear.  A inserção da hipermídia proporcionará sua conversão em meio emissor a provocar reflexão, participação, interatividade.
Muito mais que ter à mão um controle remoto – como um bumerangue – teremos a possibilidade de emissoras não só para operadores privados e estatais, mas (geridas coletivamente) por sindicatos, associações, ONGs, movimentos sociais, a consolidar esta nova galáxia plurinformativa em extraordinário mercado para novos negócios, produção (e consumo) de conteúdo, na busca de um cenário onde reine “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.
Na expectativa de que as emissoras ofertem programações interativas de qualidade, saliente-se que as técnicas não têm sentido em si mesmas, dependem do uso que façamos delas. Quanto à nova legislação, o critério fundamental para sua avaliação deve ser o quanto ela possibilita de ampliação da participação de mais e diferentes vozes no debate público.
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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br