O lugar do goleiro é um terreno minado

             Foto: Divulgação  
fotoLev Yashin (1929-1990), da Rússia, o “aranha negra”, maior goleiro de todos os tempos.
“…A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que 
joga na Seleção…”.

Como propunha Gilberto Gil no trecho citado na epígrafe, extraído da metafórica “Meio de campo”, canção do exílio (oh Gonçalves Dias) cuja letra/poema foi escrita na forma de uma carta ao inesquecível meia volante Afonsinho, nos idos dos anos 70 e refletindo sobre a “perfeição”, o lugar do goleiro é mesmo excepcional. Vale lembrar, ainda, que Afonsinho, foi o primeiro jogador a usar barba longa e rebelar-se contra a estrutura arcaica e autoritária do nosso futebol e a lutar pelo direito de trabalhar onde quisesse, ganhado o “passe livre” na Justiça.

Mas, entre todos os atletas que compõem uma equipe de futebol, somente ao goleiro é permitido o toque na bola com as mãos, como se a legitimar a prática desse esporte frente às demais modalidades esportivas praticadas com as mãos.

Todavia, a ação dos goleiros está restrita aos territórios da Pequena Área (onde é intocável) e da Grande Área, limite da sua atuação com as mãos. Na medida em que ultrapassa os limites dessas linhas, não mais lhe é permitido o toque na bola com as mãos, tornando-se idêntico aos demais, numa espécie de metamorfose por localização.

Os goleiros funcionam como os guardiães do reduto do gol. Primeira e última posição tocam-se (como extremos) na defesa da meta. Algo como a honra, a defesa da honra, é o que está colocado em jogo para o goleiro. Daí expressões como “caiu o véu da noiva”, entre tantas outras empregadas pelos locutores esportivos, a expressar o “desmascaramento” do lugar a ocultar, a proteger. Ao “arqueiro” cabe “fechar o gol”.

A codificação extremamente exigente, que rege os jogos de futebol, determina também a grande área como o espaço em que qualquer falta contra o adversário seja convertida em tiro livre (o pênalti), para o qual resta apenas a esperança de defesa pelo goleiro, num frente-a-frente irrecorrível.

Todo o campo – as quatro linhas em forma retangular, mais a linha divisória e seu grande círculo – tende a revelar-se como uma mandala, à medida em que o embate entre duas equipes é levado a efeito. O retângulo é uma forma inexistente na natureza. Diversas artes – como se costuma dizer também do futebol/arte – têm no retângulo a forma, o suporte, para sua realização, na pintura, no cinema, na fotografia.

A circularidade (o meio-de-campo, a meia-lua da grande área) e a face cabalística do número quatro (as quatro linhas que delimitam o campo), tendem a estabelecer uma relação com a origem do universo, pelo menos segundo a lógica dos místicos, mas a alquimia futebolística envolve a catarse coletiva de sentimentos que, em muitos casos, extrapola os interesses imediatos do que se desenrola no gramado.

No mais, é certo que a posição do goleiro, ali, no terreno minado “onde não nasce grama”, costuma ser aquela para a qual muita gente não gostaria de estar na pele, exceto os que, singularmente, nasceram com esta aptidão.  Por conta deles é que continua “nada fácil marcar um gol nessa partida, meu irmão”.

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